É sob o golpe da dor profunda causada pela partida prematura do venerável fundador da Doutrina Espírita, que abordamos a nossa tarefa, simples e fácil para as sua mãos sábias e experimentadas, mas cujo peso e gravidade nos acabrunhariam se não contássemos com o concurso eficaz dos bons Espíritos e a indulgência dos nossos leitores.
Quem, entre nós, sem ser taxado de presunçoso, poderia se gabar de possuir o espírito de método e de organização dos quais se iluminam todos os trabalhos do mestre? Sua poderosa inteligência podia concentrar sozinha tantos materiais diversos, e triturá-los, transformá-los, para se derramarem em seguida como orvalho benfazejo, sobre as almas desejosas de conhecerem e de amarem.
Incisivo, conciso, profundo, sabia agradar e se fazer compreendido, numa linguagem ao mesmo tempo simples e elevada, tão longe do estilo familiar quanto das obscuridades da metafísica.
Multiplicando-se sem cessar, pudera, até aqui, bastar a tudo. Entretanto, o crescimento diário de suas relações e o desenvolvimento incessante do Espiritismo faziam-lhe sentir a necessidade de acompanhar-se de alguns ajudantes inteligentes, e preparava, simultaneamente, a organização nova da Doutrina e de seus trabalhos, quando nos deixou para ir, num mundo melhor, colher a sanção da missão cumprida, e reunir os elementos de uma nova obra de devotamento e de sacrifício.
Ele era só!… Chamar-nos-emos legião, e, por fracos e inexperientes que sejamos, temos a íntima convicção de que nos manteremos à altura da situação, se, partindo dos princípios estabelecidos e de uma evidência incontestável, nos fixarmos em executar, tanto quanto nos seja possível, e segundo as necessidades do momento, os projetos de futuro que o próprio Sr. Allan Kardec se propusera cumprir.
Enquanto estivermos nesse caminho, e que todas as boas vontades se unirem num comum esforço para o progresso intelectual e moral da Humanidade, o Espírito do grande filósofo estará conosco e nos secundará com a sua poderosa influência. Possa ele suprir a nossa insuficiência, e possamos nos tornar dignos de seu concurso, em nos consagrando à obra com tanto devotamento e sinceridade, senão com tanto de ciência e de inteligência!
Escrevera sobre a sua bandeira estas palavras: Trabalho, solidariedade, tolerância. Sejamos, como ele, infatigáveis; sejamos, segundo os seus desejos, tolerantes e solidários, e não temamos em seguir o seu exemplo repondo vinte vezes entre as mãos os princípios ainda discutidos. Apelamos a todos os concursos, a todas as luzes. Tentaremos avançar com certeza antes que com rapidez, e os nossos esforços não serão infrutíferos, se, como disso estamos persuadidos, e como lhe seremos os primeiros a dar o exemplo, cada um se empenhar em cumprir o seu dever, colocando de lado toda questão pessoal para contribuir ao bem geral.
Não poderíamos entrar sob auspícios mais favoráveis na nova fase que se abre para o Espiritismo, do que fazendo os nossos leitores conhecerem, num rápido esboço, o que foi, toda a sua vida, o homem íntegro e honrado, o sábio inteligente e fecundo, cuja memória se transmitirá aos séculos futuros, cercada da auréola dos benfeitores da Humanidade.
Nascido em Lyon, a 3 de outubro de 1804, de uma antiga família que se distinguiu na magistratura e na advocacia, o Sr. Allan Kardec (Hippolyte-Léon-Denizard Rivail) não seguiu essa carreira. Desde sua primeira juventude, sentia-se atraído para o estudo das ciências e da filosofia.
Educado na Escola de Pestalozzi, em Yverdum (Suíça), tornou-se um dos discípulos mais eminentes desse célebre professor, e um dos zelosos propagadores do seu sistema de educação, que exerceu uma grande influência sobre a reforma dos estudos na Alemanha e na França.
Dotado de uma inteligência notável e atraído para o ensino pelo seu caráter e as suas aptidões especiais, desde a idade de quatorze anos, ensinava o que sabia àqueles de seus condiscípulos que tinham adquirido menos do que ele. Foi nessa escola que se desenvolveram as idéias que deveriam, mais tarde, colocá-lo na classe dos homens de progresso e dos livres pensadores.
Nascido na religião católica, mas estudante em um país protestante, os atos de intolerância que ele teve que sofrer a esse respeito, lhe fizeram, em boa hora, conceber a idéia de uma reforma religiosa, na qual trabalhou no silêncio durante longos anos, com o pensamento de chegar à unificação das crenças; mas lhe faltava o elemento indispensável para a solução desse grande problema.
O Espiritismo veio mais tarde lhe fornecer e imprimir uma direção especial aos seus trabalhos.
Terminados os seus estudos, veio para a França. Dominando a fundo a língua alemã, traduziu para a Alemanha diferentes obras de educação e de moral, e, o que é característico, as obras de Fénélon, que o seduziram particularmente.
Era membro de várias sociedades sábias, entre outras da Academie Royale d’Arras, que, em seu concurso de 1831, o premiou por uma dissertação notável sobre esta questão: “Qual é o sistema de estudos mais em harmonia com as necessidades da época?”
De 1835 a 1840, fundou, em seu domicílio, à rua de Sèvres, cursos gratuitos, onde ensinava química, física, anatomia comparada, astronomia, etc.; empreendimento digno de elogios em todos os tempos, mas sobretudo numa época em que um bem pequeno número de inteligências se aventurava a entrar nesse caminho.
Constantemente ocupado em tornar atraentes e interessantes os sistemas de educação, inventou, ao mesmo tempo, um método engenhoso para aprender a contar, e um quadro mnemônico da história da França, tendo por objeto fixar na memória as datas dos acontecimentos notáveis e das descobertas que ilustraram cada reinado.
Entre as suas numerosas obras de educação, citaremos as seguintes: Plano proposto para a melhoria da instrução pública (1828); Curso prático e teórico de aritmética, segundo o método de Pestalozzi, para uso dos professores primários e das mães de família (1829); Gramática Francesa Clássica (1831); Manual dos Exames para os diplomas de capacidade; Soluções arrazoadas das perguntas e problemas de aritmética e de geometria (1846); Catecismo gramatical da língua francesa (1848); Programa de cursos usuais de química, física, astronomia, fisiologia, que ele professava no LYCÉE POLYMATHIQUE; Ditado normal dos exames da Prefeitura e da Sorbonne, acompanhado de Ditados especiais sobre as dificuldades ortográficas (1849), obra muito estimada na época de sua aparição, e da qual, recentemente ainda, se faziam tirar novas edições.
Antes que o Espiritismo viesse a popularizar o pseudônimo Allan Kardec, como se vê, soube se ilustrar por trabalhos de uma natureza toda diferente, mas tendo por objeto esclarecer as massas e ligá-las mais à sua família e ao seu país.
“Por volta de 1855, desde que duvidou das manifestações dos Espíritos, o Sr. Allan Kardec entregou-se a observações perseverantes sobre esse fenômeno, e se empenhou principalmente em deduzir-lhe as conseqüências filosóficas. Nele entreviu, desde o início, o princípio de novas leis naturais; as que regem as relações do mundo visível e do mundo invisível; reconheceu na ação deste último uma das forças da Natureza, cujo conhecimento deveria lançar luz sobre uma multidão de problemas reputados insolúveis, e compreendeu-lhe a importância do ponto de vista religioso.
“As suas principais obras sobre essa matéria são: O Livro dos Espíritos, para a parte filosófica e cuja primeira edição apareceu em 18 de abril de 1857; O Livro dos Médiuns, para a parte experimental e científica (janeiro de 1861); O Evangelho Segundo o Espiritismo, para a parte moral (abril de 1864); O Céu e o Inferno, ou a Justiça de Deus segundo o Espiritismo (agosto de 1865); A Gênese, os Milagres e as Predições (janeiro de 1868); a Revista Espírita, jornal de estudos psicológicos, coletânea mensal começada em 1º de janeiro de 1858. Fundou em Paris, a 1º de abril de 1858, a primeira Sociedade espírita regularmente constituída, sob o nome de Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, cujo objetivo exclusivo era o estudo de tudo o que pode contribuir para o progresso desta nova ciência. O Sr. Allan Kardec nega a justo título de nada ter escrito sob a influência de idéias preconcebidas ou sistemáticas; homem de um caráter frio e calmo, ele observou os fatos, e de suas observações deduziu as leis que os regem; no primeiro deu a teoria e nele formou um corpo metódico e regular.
“Demonstrando que os fatos falsamente qualificados de sobrenaturais estão submetidos a leis, ele os faz entrar na ordem dos fenômenos da Natureza, e destrói assim o último refúgio do maravilhoso, e um dos elementos da superstição.
“Durante os primeiros anos, em que se duvidou dos fenômenos espíritas, essas manifestações foram antes um objeto de curiosidade; O Livro dos Espíritos fez encarar a coisa sob qualquer outro aspecto; então abandonaram-se as mesas girantes que não foram senão um prelúdio, e que se reunia a um corpo de doutrina que abarcava todas as questões que interessam à Humanidade.
“Do aparecimento de O Livro dos Espíritos data a verdadeira fundação do Espiritismo, que, até então, não possuía senão elementos esparsos sem coordenação, e cuja importância não pudera ser compreendida por todo o mundo; a partir desse momento, também, a doutrina fixa a atenção dos homens sérios e toma um desenvolvimento rápido. Em poucos anos, essas idéias acharam numerosos adeptos em todas as classes da sociedade e em todos os países. Esse sucesso, sem precedente, liga-se sem dúvida às simpatias que essas idéias encontraram, mas deveu-se também, em grande parte, à clareza, que é um dos caracteres distintivos dos escritos de Allan Kardec.
“Abstendo-se de fórmulas abstratas da metafísica, o autor soube se fazer ler sem fadiga, condição essencial para a vulgarização de uma idéia. Sobre todos os pontos controvertidos, sua argumentação, de uma lógica fechada, ofereceu pouca disputa à refutação e pre-dispôs à convicção. As provas materiais que o Espiritismo dá da existência da alma e da vida futura tendem à destruição das idéias materialistas e panteístas. Um dos princípios mais fecundos dessa doutrina, e que decorre do precedente, é o da pluralidade das existências, já entrevisto por uma multidão de filósofos, antigos e modernos, e nestes últimos tempos por Jean Reynaud, Charles Fourier, Eugène Sue e outros; mas permanecera no estado de hipótese e de sistema, ao passo que o Espiritismo demonstra-lhe a realidade e prova que é um dos atributos essenciais da Humanidade. Desse princípio decorre a solução de todas as anomalias aparentes da vida humana, de todas as desigualdades intelectuais, morais e sociais; o homem sabe, assim, de onde veio, para onde vai, e por que fim está sobre a Terra, e porque sofre.
“As idéias inatas se explicam pelos conhecimentos adquiridos nas vidas anteriores; a marcha dos povos e da Humanidade, pelos homens dos tempos passados que revivem depois de terem progredido; as simpatias e as antipatias, pela natureza das relações anteriores; essas relações, que ligam a grande família humana de todas as épocas, dão por base as próprias leis da Natureza, e não mais uma teoria, aos grandes princípios da fraternidade, da igualdade, da liberdade e da solidariedade universal.
“Em lugar do princípio: Fora da Igreja não há salvação, que entretém a divisão e a animosidade entre as diferentes seitas, e que fez derramar tanto sangue, o Espiritismo tem por máxima: Fora da Caridade não há salvação, quer dizer, igualdade entre os homens diante de Deus, a tolerância, a liberdade de consciência e a benevolência mútua.
“Em lugar da fé cega que anula a liberdade de pensar, ele diz: Não há fé inquebrantável senão aquela que pode olhar a razão face a face em todas as épocas da Humanidade. À fé é necessária uma base, e essa base é a inteligência perfeita daquilo que se deve crer; para crer não basta ver, é necessário, sobretudo, compreender. A fé cega não é mais deste século; ora, é precisamente o dogma da fé cega que faz hoje o maior número de incrédulos, porque ela quer se impor e exige a adição de uma das mais preciosas faculdades do homem: o raciocínio e o livre arbítrio.” (O Evangelho Segundo o Espiritismo.)
Trabalhador infatigável, sempre o primeiro e o último no trabalho, Allan Kardec sucumbiu, no dia 31 de março de 1869, em meio dos preparativos para uma mudança de local, necessitada pela extensão considerável de suas múltiplas ocupações. Numerosas obras que estavam no ponto de terminar, ou que esperavam o tempo oportuno para aparecerem, virão um dia provar mais ainda a extensão e a força de suas convicções.
Morreu como viveu, trabalhando. Há muitos anos, sofria de uma doença do coração, que não podia ser combatida senão pelo repouso intelectual e uma certa atividade material; mas inteiramente dedicado à sua obra, recusava-se a tudo o que podia absorver um dos seus instantes, às expensas de suas ocupações prediletas. Nele, como em todas as almas fortemente temperadas, a lâmina gastou a bainha.
O corpo se lhe tornava pesado e lhe recusava os seus serviços, mas o seu Espírito, mais vivo, mais enérgico, mais fecundo, estendia sempre mais o círculo de sua atividade.
Nessa luta desigual, a matéria não poderia resistir eternamente. Um dia ela foi vencida; o aneurisma se rompeu, e Allan Kardec caiu fulminado. Um homem faltava à Terra; mas um grande nome tomava lugar entre as ilustrações deste século, um grande Espírito ia se retemperar no Infinito, onde todos aqueles que ele consolara e esclarecera esperavam impacientemente a sua chegada!
“A morte, disse ele ainda recentemente, a morte bate com golpes redobrados nas classes ilustres!… A quem virá agora libertar?”
Ele veio, junto a tantos outros, se retemperar no espaço, procurar novos elementos para renovar o seu organismo usado numa vida de labores incessantes. Partiu com aqueles que serão os faróis da nova geração, para retornar logo com eles para continuar e terminar a obra deixada em mãos devotadas.
O homem aqui não mais está, mas a alma permanece entre nós; é um protetor seguro, uma luz a mais, um trabalhador infatigável do qual se acresceram as falanges do espaço. Como sobre a Terra, sem ferir ninguém, saberá fazer ouvir a cada um os conselhos convenientes; temperará o zelo prematuro dos ardentes, secundará os sinceros e os desinteressados, e estimulará os tíbios. Ele vê, sabe hoje tudo o que previra recentemente ainda! Não está mais sujeito nem às incertezas, nem aos desfalecimentos, e nos fará partilhar a sua convicção em nos fazendo tocar o dedo no objetivo, em nos designando o caminho, nessa linguagem clara, precisa, que dele fez um tipo nos anais literários.
O homem aqui não mais está, nós o repetimos, mas Allan Kardec é imortal, e a sua lembrança, os seus trabalhos, o seu Espírito, estarão sempre com aqueles que tiverem, firme e altamente, a bandeira que ele sempre soube respeitar.
Uma individualidade poderosa constituiu a obra; era o guia e a luz de todos. A obra, sobre a Terra, nos terá o lugar do indivíduo. Não se reunirá mais ao redor de Allan Kardec: reunir-se-á ao redor do Espiritismo tal como o constituiu, e, pelos seus conselhos, sob a sua influência, avançaremos a passos certos para as fases felizes prometidas à Humanidade regenerada.
Aquiescendo com deferência ao convite simpático dos amigos do pensador laborioso, cujo corpo terrestre jaz agora aos nossos pés, lembro-me de um dia sombrio do mês de dezembro de 1865. Eu pronunciava, então, supremas palavras de adeus sobre a tumba do fundador da Librairie Académique, do honorável Didier, que foi, como editor, o colaborador convicto de Allan Kardec na publicação das obras fundamentais de uma doutrina que lhe era cara, e que morreu subitamente também, como se o céu quisesse poupar, a esses dois Espíritos íntegros, o embaraço filosófico de sair desta vida por um caminho diferente do caminho comumente recebido. – A mesma reflexão se aplica à morte de nosso antigo colega Jobard, de Bruxelas.
Hoje, a minha tarefa é maior ainda, porque gostaria de poder representar, ao pensamento daqueles que me ouvem, e àqueles milhões de homens que no novo mundo estão ocupados com o problema ainda misterioso dos fenômenos denominados espíritas; – eu gostaria, disse eu, de poder representar-lhes o interesse científico e o futuro filosófico do estudo desses fenômenos (ao qual se entregaram, como ninguém ignora, homens eminentes entre os nossos contemporâneos). Gostaria de lhes fazer entrever quais horizontes desconhecidos ao pensamento humano verá se abrir diante deles, à medida que estenda o seu conhecimento positivo das forças naturais em ação ao nosso redor; mostrar-lhes que tais constatações são o antídoto mais eficaz da lepra do ateísmo, que parece atacar particularmente a nossa época de transição; e testemunhar, enfim, publicamente, aqui, do eminente serviço que o autor de O Livro dos Espíritos prestou à filosofia, chamando a atenção e a discussão sobre fatos que, até então, pertenciam ao domínio mórbido e funesto das superstições religiosas.
Seria, com efeito, um ato importante estabelecer aqui, diante desta tumba eloqüente, que o exame metódico dos fenômenos espíritas, chamados erradamente de sobrenaturais, longe de renovar o espírito supersticioso e enfraquecer a energia da razão, ao contrário, afasta os erros e as ilusões da ignorância, e serve melhor ao progresso do que a negação ilegítima daqueles que não querem, de nenhum modo, dar-se ao trabalho de ver.
Mas não é aqui o lugar de abrir uma arena à discussão desrespeitosa. Deixemos somente descer, de nossos pensamentos, sobre a face impassível do homem deitado diante de nós, testemunhos de afeição e sentimentos de pesar, que restam ao redor dele em seu túmulo, como um embalsamamento do coração! E uma vez que sabemos que a sua alma eterna sobrevive a este despojo mortal, como lhe preexistiu; uma vez que sabemos que laços indestrutíveis ligam o nosso mundo visível ao mundo invisível; uma vez que esta alma existe hoje, tão bem como há três dias, e que não é impossível que ela não se encontre atualmente aqui diante de mim; dizemos-lhe que não quisemos ver se desvanecer a sua imagem corpórea e encerrá-la em seu sepulcro, sem honrar unanimemente os seus trabalhos e a sua memória, sem pagar um tributo de reconhecimento à sua encarnação terrestre, tão utilmente e tão dignamente cumprida.
Eu exporei primeiro, num esboço rápido, as linhas principais de sua carreira literária.
Morto com a idade de 65 anos, Allan Kardec consagrara a primeira parte de sua vida a escrever obras clássicas, elementares, destinadas sobretudo ao uso de professores primários e da juventude. Quando, por volta de 1855, as manifestações, em aparência novas, das mesas girantes, das pancadas sem causa ostensiva, dos movimentos insólitos dos objetos e dos móveis, começaram a atrair a atenção pública e determinaram mesmo, nas imaginações aventurosas, uma espécie de febre devida à novidade das experiências, Allan Kardec, estudando ao mesmo tempo o magnetismo e os efeitos estranhos, seguiu com a maior paciência e uma judiciosa clarividência as experiências e as tentativas tão numerosas feitas então em Paris. Ele recolheu e pôs em ordem os resultados obtidos por essa longa observação, e com isso compôs o corpo de doutrina publicado, em 1857, na primeira edição de O Livro dos Espíritos. Sabeis todos que sucesso acolheu essa obra, na França e no estrangeiro.
Chegada hoje à sua 15ª edição, difundiu em todas as classes esse corpo de doutrina elementar, que não era, de nenhum modo, novo em sua essência, uma vez que a escola de Pitágoras, na Grécia, e a dos druidas, em nossa pobre Gália dela, ensinavam os princípios, mas que revestiam uma forma da atualidade pela correspondência com os fenômenos.
Depois dessa primeira obra, apareceram, sucessivamente, O Livro dos Médiuns ou Espiritismo experimental; – O que é o Espiritismo? ou resumo sob a forma de perguntas e de respostas; – O Evangelho Segundo o Espiritismo; – O Céu e o Inferno; – A Gênese; – e a morte veio surpreendê-lo no momento em que, em sua atividade infatigável, trabalhava numa obra sobre as relações do magnetismo e do Espiritismo.
Pela Revista Espírita e a Sociedade de Paris, da qual era presidente, se constituíra, de alguma sorte, o centro para onde tudo tendia, o traço de união de todos os experimentadores. Há alguns meses, sentindo o seu fim próximo, preparou as condições de vitalidade desses mesmos estudos depois de sua morte, e estabeleceu a Comissão central que lhe sucede.
Ele levantou rivalidades; fez escola sob uma forma um pouco pessoal; há ainda alguma divisão entre os “espiritualistas” e os “espíritas”. Doravante, Senhores, (tal é pelo menos o voto dos amigos da verdade), deveremos estar todos reunidos por uma solidariedade confraternal, pelos mesmos esforços para a elucidação do problema, pelo desejo geral e impessoal do verdadeiro e do bem.
Objetou-se, Senhores, ao nosso digno amigo, a quem rendemos hoje os derradeiros deveres, se lhe objetou de não ser, de nenhum modo, o que se chama um sábio, de não ter sido, primeiro, físico, naturalista ou astrônomo, e de ter preferido constituir um corpo de doutrina moral antes de haver aplicado a discussão científica à realidade e à natureza dos fenômenos.
Talvez, Senhores, seja preferível que as coisas hajam começado assim. Não é necessário rejeitar sempre o valor do sentimento. Quantos corações foram consolados primeiro por esta crença religiosa! Quantas lágrimas foram secadas! Quantas consciências abertas ao raio da beleza espiritual! Nem todos são felizes neste mundo. Muitas afeições foram dilaceradas! Muitas almas foram entorpecidas pelo ceticismo. Não é, pois, nada senão de haver conduzido ao espiritualismo tantos seres que flutuavam na dúvida e que não amavam mais a vida, nem a física, nem a intelectual?
Allan Kardec fora homem de ciência, e, sem dúvida, não teria podido prestar este primeiro serviço e difundi-lo, assim, ao longe, como um convite a todos os corações.
Mas era o que eu chamarei simplesmente “o bom senso encarnado”. Razão direita e judiciosa, aplicava sem esquecimento, à sua obra permanente, as indicações íntimas do senso comum. Não estava aí uma menor qualidade na ordem das coisas que nos ocupa. Era, pode-se afirmá-lo, a primeira de todas e a mais preciosa, sem a qual a obra não poderia se tornar popular, nem lançar as suas imensas raízes no mundo. A maioria daqueles que se entregaram a esses estudos, lembram-se de ter sido, em sua juventude, ou em certas circunstâncias especiais, testemunhas, eles mesmos, das manifestações inexplicadas; há poucas famílias que não hajam observado, em sua história, testemunhos dessa ordem. O primeiro ponto era aplicar-lhes a razão firme do simples bom senso e examiná-las segundo os princípios do método positivo.
Como organizador desse estudo lento e difícil, ele mesmo previu-o, esse complexo estudo deve entrar agora em seu período científico. Os fenômenos físicos sobre os quais não se insistiu de início, devem se tornar o objeto da crítica experimental, à qual devemos a glória do progresso moderno, e as maravilhas da eletricidade e do vapor; esse método deve tomar os fenômenos de ordem ainda misteriosa, aos quais assistimos, dissecá-los, medi-los, e defini-los.
Porque, Senhores, o Espiritismo não é uma religião, mas é uma ciência, ciência da qual conhecemos apenas o a b c. O tempo dos dogmas acabou. A Natureza abarca o Universo, e, o próprio Deus, que se fez outrora à imagem do homem, não pode ser considerado pela metafísica moderna senão como um Espírito na Natureza. O sobrenatural não existe mais. As manifestações obtidas por intermédio dos médiuns, como as do magnetismo e do sonambulismo, são de ordem natural, e devem ser severamente submetidas ao controle da experiência. Não há mais milagres. Assistimos à aurora de uma ciência desconhecida. Quem poderia prever a quais conseqüências conduzirá, no mundo do pensamento, o estudo positivo dessa psicologia nova?
Doravante, a ciência rege o mundo; e, Senhores, não será estranho a este discurso fúnebre anotar a sua obra atual e as induções novas que ela nos descobre, precisamente do ponto de vista de nossas pesquisas.
Em nenhuma época da história, a ciência desenvolveu, diante do olhar admirado do homem, horizontes tão grandiosos. Sabemos agora que a Terra é um astro, e que nossa vida atual se cumpre no céu. Pela análise da luz, conhecemos os elementos que queimam no Sol e nas estrelas, a milhões, a trilhões de léguas de nosso observatório terrestre. Pelo cálculo, possuímos a história do céu e da Terra em seu passado distante, como em seu futuro, que não existem pelas leis imutáveis. Pela observação, pesamos as terras celestes que gravitam na amplidão. O globo onde estamos se tornou um átomo estelar voando no espaço, em meio das profundezas infinitas, e a nossa própria existência, sobre este globo, tornou-se uma fração infinitesimal de nossa vida eterna. Mas o que pode, a justo título, nos ferir mais vivamente ainda, é esse espantoso resultado dos trabalhos físicos operados nestes últimos anos: que vivemos em meio de um mundo invisível, agindo sem cessar ao nosso redor. Sim, Senhores, aí está, para nós, uma revelação imensa. Contemplai, por exemplo, a luz derramada nesta hora na atmosfera por esse brilhante Sol, contemplai esse azul tão suave da abóboda celeste, notai esses eflúvios de ar tíbio que vem acariciar os nossos rostos, olhai esses monumentos e esta terra: pois bem! apesar dos nossos grandes olhos abertos, não vemos o que se passa aqui! Sobre cem raios emanados do Sol, só um terço é acessível à nossa visão, seja diretamente, seja refletido por todos os corpos; os dois terços existem e agem ao nosso redor, mas de maneira invisível, embora real. São quentes, sem serem luminosos para nós e são, entretanto, mais ativos do que aqueles que nos ferem, porque são eles que atraem as flores para o lado do Sol, que produzem todas as ações químicas (1), e são eles também que elevam, sob uma forma igualmente invisível, o vapor d’água na atmosfera para formar as nuvens; – exercendo assim, incessantemente, ao nosso redor, de maneira oculta e silenciosa, uma força colossal, mecanicamente avaliável ao trabalho de bilhões de cavalos!
(1) A nossa retina é insensível a esses raios; mas outras substâncias os vêem, por exemplo, o iodo e os sais de prata. Fotografou-se o espectro solar químico, que o nosso olho não vê. A placa do fotógrafo não oferece, de resto, jamais, nenhuma imagem visível ao sair da câmara escura, embora ela a possua, uma vez que uma operação a química faz aparecer.
Se os raios caloríficos e os raios químicos que agem constantemente na Natureza são invisíveis para nós, é porque os primeiros não ferem com bastante rapidez a nossa retina, e porque os segundos a ferem muito rápido. O nosso olho não vê as coisas senão entre dois limites, aquém e além dos quais não vê mais. O nosso organismo terrestre pode ser comparado a uma harpa de duas cordas, que são o nervo óptico e o nervo auditivo. Uma certa espécie de movimento coloca em vibração o primeiro e uma outra espécie de movimentos coloca em vibração o segundo: aí está toda a sensação humana, mais restrita aqui do que a de certos seres vivos, de certos insetos, por exemplo, nos quais essas mesmas cordas, da visão e do ouvido, são mais delicadas. Ora, existem, em realidade, na Natureza não dois, mas dez, cem, mil espécies de movimentos. A ciência física nos ensina, portanto, que vivemos assim no meio de um mundo invisível para nós, e que não é impossível que seres (invisíveis igualmente para nós) vivam igualmente sobre a Terra, numa ordem de sensações absolutamente diferentes da nossa, e sem que possamos apreciar a sua presença, a menos que não se manifestem a nós por fatos entrando na nossa ordem de sensações.
Diante de tais verdades, que não fazem ainda senão entreabrir, quanto a negação a priori parece absurda e sem valor! Quando se compara o pouco que sabemos, e a exigüidade da nossa esfera de percepção à quantidade do que existe, não se pode impedir de concluir que não sabemos nada e que tudo nos resta a saber. Com que direito pronunciaremos, pois, a palavra “impossível” diante dos fatos que constatamos sem poder descobrir-lhes a causa única?
A ciência nos abre visões, tão autorizadas quanto as precedentes, sobre os fenômenos da vida e da morte e sobre a força que nos anima. Basta-nos observar a circulação das existências.
Tudo não é senão metamorfose. Transportados em seu curso eterno, os átomos constitutivos da matéria passam, sem cessar, de um corpo a outro, do animal à planta, da planta à atmosfera, da atmosfera ao homem, e nosso próprio corpo, durante a duração inteira de nosso vida, muda incessantemente de substância constitutiva, como a chama não brilha senão pelos elementos renovados sem cessar; e quando a alma se evola, esse mesmo corpo, tantas vezes transportado já durante a vida, devolve definitivamente à Natureza todas as moléculas para não mais retomá-las. Ao dogma inadmissível da ressurreição da carne substituiu-se a alta doutrina da transmigração das almas.
Eis o sol de abril que irradia nos céus e nos inunda com o seu primeiro orvalho calorescente. Já os campos despertam, já os primeiros botões se entreabrem, já a primavera floresce, o azul celeste sorri, e a ressurreição se opera; e, todavia, esta vida nova não está formada senão pela morte e não recobre senão ruínas! De onde vem a seiva dessas árvores que reverdecem no campo dos mortos? De onde vem essa umidade que nutre as raízes? De onde vêm todos os elementos que vão fazer aparecer, sob as carícias de maio, as pequenas flores silenciosas e os pássaros cantores? – Da morte?… Senhores…, desses cadáveres sepultados na noite sinistra dos túmulos!… Lei suprema da Natureza, o corpo não é senão um conjunto transitório de partículas que não lhe pertencem de nenhum modo, e que a alma agrupou segundo o seu próprio tipo, para se criarem órgãos pondo-a em relação com o nosso mundo físico. E, ao passo que o nosso corpo se renova assim, peça por peça, pela mudança perpétua das matérias, ao passo que um dia cai, massa inerte, para não mais se levantar, o nosso Espírito, ser pessoal, guardou constantemente a sua identidade indestrutível, reinou soberanamente sobre a matéria da qual estava revestido, estabelecendo assim, por esse fato constante e universal, a sua personalidade independente, a sua essência espiritual não submissa ao império do espaço e do tempo, sua grandeza individual, a sua imortalidade.
Em que consiste o mistério da vida? Por que laços a alma está ligada ao organismo? Por qual solução ela dele se escapa? Sob qual forma, e em quais condições, ela existe depois da morte? – Estão aí, Senhores, tantos problemas que estão longe de serem resolvidos, e cujo conjunto constituirá a ciência psicológica do futuro. Certos homens podem negar a própria existência da alma, como a de Deus, afirmarem que a verdade moral não existe, que não há, de nenhum modo, leis inteligentes na Natureza, e que nós, espiritualistas, somos vítimas de uma imensa ilusão. Outros podem, opondo-se-lhes, declarar que conhecem, por um privilégio especial, a essência da alma humana, a forma do Ser supremo, o estado da vida futura, e nos tratar de ateus, porque a nossa razão se recusa à sua fé. Uns e outros, Senhores, não impedirão que estejamos aqui, em face dos maiores problemas, que não nos interessemos por essas coisas (que estão longe de nós serem estranhas), e que não tenhamos o direito de aplicar o método experimental, da ciência contemporânea, na pesquisa da verdade.
É pelo estudo positivo dos efeitos que se remonta à apreciação das causas. Na ordem dos estudos reunidos sob a denominação genérica de “Espiritismo”, os fatos existem. Mas ninguém conhece o seu modo de produção. Eles existem, tão bem quanto os fenômenos elétricos, luminosos, caloríficos; mas, Senhores, não conhecemos nem a biologia e nem a fisiologia. O que é o corpo humano? O que é o cérebro? Qual é a ação absoluta da alma? Nós o ignoramos. Ignoramos igualmente a essência da eletricidade, a essência da luz; é, pois, sábio observar, sem tomar partido, todos esses fatos, e tentar determinar-lhes as causas, que são, talvez, espécies diversas e mais numerosas do que não o supusemos até aqui.
Que aqueles cuja visão está limitada pelo orgulho, ou pelos preconceitos, não compreendem de nenhum modo esses ansiosos desejos dos nossos pensamentos ávidos de conhecerem; que lancem sobre esse gênero de estudo, o sarcasmo ou o anátema; elevamos mais alto as nossas contemplações!… Tu foste o primeiro, ó mestre e amigo! tu foste o primeiro que, desde o início da minha carreira astronômica, testemunhou uma viva simpatia pelas minhas deduções relativas à existência de humanidades celestes; porque, tendo na mão o livro da Pluralidade dos mundos habitados, o colocaste em seguida na base do edifício doutrinário que sonhavas. Muito freqüentemente, nos entretemos juntos dessa vida celeste tão misteriosa; agora, ó alma! sabes por uma visão direta, em que consiste essa vida espiritual, à qual retornaremos todos, e que nos esquecemos durante esta existência.
Agora retornastes a esse mundo de onde viemos, e recolhes os frutos dos teus estudos terrestres. O teu envoltório dorme aos nossos pés, teu cérebro está aniquilado, os teus olhos estão fechados para não mais se abrirem, a tua palavra não se fará mais ouvir… Sabemos que todos nós chegaremos a esse mesmo último sonho, à mesma inércia, ao mesmo pó. Mas não é nesse envoltório que colocamos a nossa glória e a nossa esperança. O corpo cai, a alma permanece e retorna ao espaço. Encontrar-nos-emos, nesse mundo melhor, e no céu imenso onde se exercerão as nossas faculdades, as mais poderosas, continuaremos os estudos que não tinham sobre a Terra senão um teatro muito estreito para contê-los.
Gostamos mais de saber esta verdade do que crer que tudo jaz inteiramente nesse cadáver, e que a tua alma haja sido destruída pela cessação do funcionamento de um órgão. A imortalidade é a luz da vida, como esse brilhante Sol é a luz da Natureza.
Até este dia, a Revista Espírita, foi essencialmente a obra , a criação de Allan Kardec, como de resto, todas as obras doutrinárias que ele publicou.
Quando a morte o surpreendeu, a multiplicidade de suas ocupações e a nova fase na qual entrava o Espiritismo, lhe fizeram desejar reunir alguns colaboradores convencidos, para executar, sob a sua direção, trabalhos aos quais não podia mais bastar.
Trataremos de não nos afastar do caminho que nos traçou; mas nos pareceu de nosso dever, consagrar aos trabalhos do Mestre, sob o título de Obras Póstumas, algumas páginas que reservaria se permanecesse corporalmente entre nós. A abundância dos documentos acumulados em seu escritório de trabalho nos permitiu, durante vários anos, de publicar, em cada número, além das instruções que ele queria bem nos dar como Espírito, um desses interessantes artigos que ele sabia tão bem tornar compreensível a todos.
Estamos persuadidos de assim satisfazer aos desejos de todos aqueles que a filosofia espírita reuniu nas mesmas classes, e que souberam apreciar, no autor de O Livro dos Espíritos, o homem de bem, o trabalhador infatigável e devotado, o espírita convencido, aplicando-se em sua vida privada, em pôr em prática os princípios que ensinava em suas obras.
1. Há um Deus, inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas.
A prova da existência de Deus está no axioma: Não há efeito sem causa. Vemos incessantemente uma multidão inumerável de efeitos, cuja causa não está na Humanidade, uma vez que a Humanidade está impossibilitada de reproduzi-los, e mesmo de explicá-los: a causa está, pois, acima da Humanidade. É a essa causa que se chama Deus, Jeová, Alá, Brama, Fo-hi, Grande Espírito, etc., segundo as línguas, os tempos e os lugares.
Esses efeitos, de nenhum modo, não se produzem ao acaso, fortuitamente e sem ordem; desde a organização do menor inseto, e do maior grão, até à lei que rege os mundos circulando no espaço, tudo atesta um pensamento, uma combinação, uma previdência, uma solicitude que ultrapassam todas as concepções humanas. Essa causa é, pois, soberanamente inteligente.
2. Deus é eterno, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom.
Deus é eterno, se tivesse tido um começo, alguma coisa teria existido antes dele; teria saído do nada, ou bem teria sido criado, ele mesmo, por um ser anterior. Assim é que, de passo a passo, remontamos ao infinito na eternidade.
Deus é imutável; se estivesse sujeito a mudanças, as leis que regem o Universo não teriam nenhuma estabilidade.
É imaterial, quer dizer que a sua natureza difere de tudo o que chamamos matéria, de outro modo estaria sujeito às flutuações e às transformações da matéria, e não seria imutável.
É único, se houvesse vários deuses, teria várias vontades; e desde então não teria uma unidade de vistas, nem unidade de poder na ordenação do Universo.
É onipotente, porque é único. Se não tivesse o soberano poder, haveria alguma coisa mais poderosa do que ele; não teria feito todas as coisas, e as que não tivesse feito, seriam a obra de um outro Deus.
É soberanamente justo e bom. A sabedoria providencial das leis divinas se revela nas menores coisas, como nas maiores, e essa sabedoria não permite duvidar nem da sua justiça, nem da sua bondade.
3. Deus é infinito em todas as suas perfeições.
Supondo-se imperfeito um só dos atributos de Deus, se se diminui a menor parcela da eternidade, da imutabilidade, da imaterialidade, da unidade, da onipotência da justiça e da bondade de Deus, pode-se supor um outro ser possuindo o que lhe faltaria, e esse ser, mais perfeito do que ele, seria Deus.
§ II. A ALMA
4. Há no homem um princípio inteligente que se chama ALMA ou ESPÍRITO, independente da matéria e que lhe dá o senso moral da faculdade de pensar.
Se o pensamento fosse uma propriedade da matéria, ver-se-ia a matéria bruta pensar; ora, como jamais se viu a matéria inerte dotada de faculdades intelectuais; que quando o corpo está morto ele não pensa mais, é necessário disso concluir que a alma é independente da matéria, e que os órgãos não são senão instrumentos com a ajuda dos quais o homem manifesta o seu pensamento.
5. As doutrinas materialistas são incompatíveis com a moral e subversivas da ordem social.
Se, segundo os materialistas, o pensamento fosse segregado pelo cérebro, como a bile é segregada pelo fígado, disso resultaria que, na morte do corpo, a inteligência do homem e todas as suas qualidades morais reentrariam no nada; que os parentes, os amigos e todos aqueles aos quais se tivesse afeiçoado, estariam perdidos sem retorno; que o homem de gênio seria sem mérito, uma vez que não deveria as suas faculdades transcendentais senão ao acaso de sua organização; que não haveria, entre o imbecil e o sábio, senão a diferença de mais ou de menos cérebro.
As conseqüências dessa doutrina seriam que, não esperando o homem nada além desta vida, nenhum interesse teria em fazer o bem; que seria muito natural que procurasse se proporcionar o mais de gozos possíveis, fosse memo às expensas de outrem; que haveria estupidez em disso se privar pelos outros; que o egoísmo seria o sentimento mais racional; que aquele que fosse teimosamente infeliz sobre a Terra, nada melhor teria a fazer do que se matar, uma vez que, devendo cair no nada, isso não seria nem mais e nem menos para ele, e que abreviaria os seus sofrimentos.
A doutrina materialista é, pois, a sanção do egoísmo, fonte de todos os vícios, a negação da caridade, fonte de todas as virtudes e base da ordem social, e a justificação do suicídio.
6. A independência da alma está provada pelo Espiritismo.
A existência da alma está provada pelos atos inteligentes do homem, que devem ter uma causa inteligente e não uma causa inerte. A sua independência da matéria está demonstrada de maneira patente pelos fenômenos espíritas que a mostram agindo por si mesma, e sobretudo pela experiência de seu isolamento durante a vida, o que lhe permite se manifestar, pensar e agir na ausência do corpo.
Pode-se dizer que, se a química separou os elementos da água, se ela colocou por aí as suas propriedades em descoberto, e se pode à vontade fazer e desfazer um corpo composto, o Espiritismo pode igualmente isolar os dois elementos constitutivos do homem: o espírito e a matéria, a alma e o corpo, separá-los e reuni-los à vontade, o que não pode deixar dúvida sobre a sua independência.
7. A alma do homem sobrevive ao corpo e conserva a sua individualidade depois da morte.
Se a alma não sobrevivesse ao corpo, o homem não teria por perspectiva senão o nada, do mesmo modo se a faculdade de pensar fosse o produto da matéria; se ela não conservasse a sua individualidade, quer dizer, se ela fosse se perder no reservatório comum chamado grande todo, como as gotas de água no Oceano, isso não seria menos para o homem o nada do pensamento, e as conseqüências seriam absolutamente as mesmas de que se não tivesse alma.
A sobrevivência da alma depois da morte está provada, de maneira irrecusável e de alguma sorte palpável, pelas comunicações espíritas. Sua individualidade está demonstrada pelo caráter e pelas qualidades próprias de cada uma; essas qualidades, distinguindo as almas umas das outras, constituem a sua personalidade; se elas estivessem confundidas num todo comum, não teriam senão qualidades uniformes.
Além dessas provas inteligentes, há ainda a prova material das manifestações visuais, ou aparições, que são tão freqüentes e tão autênticas, que não é permitido contradizer.
8. A alma do homem é feliz ou infeliz depois da morte, segundo o bem ou o mal que fez durante a vida.
Desde que se admite um Deus soberanamente bom e justo, não se pode admitir que as almas tenham uma sorte comum. Se a posição futura do criminoso e do homem virtuoso devesse ser a mesma, isso excluiria toda a utilidade de se fazer o bem; ora, supor que Deus não faz diferença entre aquele que faz o bem e aquele que faz o mal, seria negar a sua justiça. Não recebendo o mal sempre a sua punição, nem o bem a sua recompensa durante a vida terrestre, disso é necessário concluir que a justiça será feita depois, sem isso Deus não seria justo.
As penas e os gozos futuros estão, por outro lado, materialmente provados pelas comunicações que os homens podem estabelecer com as almas daqueles que viveram e que vêm descrever o seu estado, feliz ou infeliz, a natureza de suas alegrias ou de seus sofrimentos, e dizer-lhes a causa.
9. Deus, a alma, sobrevivência e individualidade da alma depois da morte do corpo, penas e recompensas futuras, são os princípios fundamentais de todas as religiões.
O Espiritismo vem acrescentar, às provas morais desses princípios, as provas materiais dos fatos e da experimentação, e interromper os sofismas do materialismo. Em presença dos fatos, a incredulidade não tem mais razão de ser; assim é que o Espiritismo vem dar de novo a fé àqueles que a perderam, e levantar as dúvidas entre os incrédulos.
§ III. CRIAÇÃO
10. Deus é o criador de todas as coisas.
Esta proposição é a conseqüência da prova da existência de Deus.
11. O princípio das coisas está nos segredos de Deus.
Tudo diz que Deus é o autor de todas as coisas, mas quando e como as criou? É a matéria de toda a eternidade como ele? É o que ignoramos. Sobre tudo o que não julgou oportuno nos revelar, não se pode estabelecer senão sistemas mais ou menos prováveis. Dos efeitos que vemos, podemos remontar a certas causas; mas há um limite que nos é impossível transpor, e seria, ao mesmo tempo, perder seu tempo e se expor e desviar-se querendo ir além.
12. O homem tem por guia, na pesquisa do desconhecido, os atributos de Deus.
Na procura dos mistérios, que nos são permitidos sondar, pelo raciocínio, há um critério certo, um guia infalível: são os atributos de Deus.
Desde que se admite que Deus deve ser eterno, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom, que é infinito em suas perfeições, toda doutrina ou teoria, científica ou religiosa, que tendesse a lhe tirar uma parcela, de um único de seus atributos, seria necessariamente falsa, uma vez que tenderia à negação da própria divindade.
13. Os mundos materiais tiveram um começo e terão um fim.
Que a matéria seja de toda a eternidade como Deus, ou que ela haja sido criada numa época qualquer, é evidente, segundo o que se passa diariamente sob os nossos olhos, que as transformações da matéria são temporárias, e que dessas transformações resultam os diferentes corpos, que nascem e se destroem sem cessar.
Sendo os diferentes mundos os produtos da aglomeração e da transformação da matéria, devem, como todos os corpos, ter tido um começo e ter um fim, segundo as leis que nos são desconhecidas. A ciência pode, até um certo ponto, estabelecer as leis de sua formação e remontar ao seu estado primitivo. Toda teoria filosófica em contradição com os fatos mostrados pela ciência, é necessariamente falsa, a menos que se prove que a ciência está em erro.
14. Criando os mundos materiais, Deus também criou seres inteligentes, a que chamamos Espíritos.
15. A origem e o modo de criação dos Espíritos nos são desconhecidos; sabemos somente que são criados simples e ignorantes, quer dizer, sem ciência e sem conhecimento do bem e do mal, mas perfectíveis e com uma igualdade de aptidão para tudo adquirir e tudo conhecer com o tempo. No princípio, estão numa espécie de infância, sem vontade própria e sem consciência perfeita de sua existência.
16. À medida que o espírito se afasta do ponto de partida, as idéias se desenvolvem nele, como na criança, e com as idéias, o livre arbítrio, quer dizer, a liberdade de fazer, ou não fazer, de seguir tal ou tal caminho, para o seu adiantamento, o que é um dos atributos essenciais do Espírito.
17. O objetivo final de todos os Espíritos é alcançar a perfeição, da qual a criatura é suscetível; o resultado dessa perfeição é o gozo da felicidade suprema, que lhe é a conseqüência, e à qual chegam, mais ou menos prontamente segundo o uso que fazem de seu livre arbítrio.
18. Os Espíritos são os agentes do Poder Divino; constituem a força inteligente da Natureza e concorrem ao cumprimento dos objetivos do Criador para a constituição da harmonia geral do Universo e das leis imutáveis da criação.
19. Para concorrerem, como agentes do poder divino, na obra dos mundos materiais, os Espíritos revestem, temporariamente, um corpo material.
Os Espíritos encarnados constituem a Humanidade. A alma do homem é um Espírito encarnado.
20. A vida espiritual é a vida normal do Espírito; ela é eterna; a vida corpórea é transitória e passageira; isso não é senão um instante na eternidade.
21. A encarnação dos Espíritos está nas leis da Natureza; é necessária ao seu adiantamento e ao cumprimento das obras de Deus. Pelo trabalho que a sua existência corpórea necessita, aperfeiçoam a sua inteligência e adquirem, em observando a lei de Deus, os méritos que devem conduzi-los à felicidade eterna.
Disso resulta que, todos concorrendo para a obra geral da criação, os Espíritos trabalham pelo seu próprio adiantamento.
22. O aperfeiçoamento do Espírito é o fruto de seu próprio trabalho; ele avança em razão de sua maior ou menor atividade, ou de boa vontade, para adquirir as qualidades que lhe faltam.
23. Não podendo o Espírito adquirir, numa só existência corporal, todas as qualidades morais e intelectuais que devem conduzi-lo ao objetivo, ele o alcança por uma sucessão de existências, em cada uma das quais dá alguns passos à frente na senda do progresso, e se purifica de algumas de suas imperfeições.
24. A cada nova existência, o Espírito traz o que adquiriu em inteligência e em moralidade em suas existências precedentes, assim como os germes das imperfeições das quais ainda não se despojou.
25. Quando uma existência foi mal empregada pelo Espírito, quer dizer, se ele não fez nenhum progresso no caminho do bem, é sem proveito para ele, e deve recomeçá-la em condições mais ou menos penosas, em razão de sua negligência e de sua má vontade.
26. A cada existência corpórea, o Espírito devendo adquirir alguma coisa de bem e se despojar de alguma coisa de mal, disso resulta que, depois de um certo número de encarnações, ele se encontra depurado e chega ao estado de Espírito puro.
27. O número das existências corpóreas é indeterminado: depende da vontade do Espírito abreviá-lo trabalhando ativamente pelo seu aperfeiçoamento moral.
28. No intervalo das existências corpóreas, o Espírito está errante e vive a vida espiritual. A erraticidade não é de duração determinada.
29. Quando os Espíritos adquiriram, sobre um mundo, a soma do progresso que o estado desse mundo comporta, eles o deixam para se encarnarem num outro mais avançado, onde adquirem novos conhecimentos, e assim por diante até que a encarnação em um corpo material, não lhes sendo mais útil, eles vivem exclusivamente a vida espiritual, onde progridem ainda num outro sentido e por outros meios. Chegados ao ponto culminante do progresso,gozam da suprema felicidade; admitidos nos conselhos do Onipotente têm o seu pensamento e se tornam seus mensageiros, seus ministros diretos para o governo dos mundos, tendo sob as suas ordens os Espíritos de diferentes graus de adiantamento.
1. As almas ou Espíritos daqueles que viveram constituem o mundo invisível que povoa o espaço, e no meio do qual nós vivemos; disso resulta que, desde que há homens, há Espíritos, e que se estes últimos têm o poder de se manifestar, devem te-lo feito em todas as épocas. É o que constatam a história e as religiões de todos os povos. Entretanto, nestes últimos tempos, as manifestações dos Espíritos tomaram um grande desenvolvimento, e adquiriram um maior caráter de autenticidade, porque estava nos objetivos da Providência pôr um termo à praga da incredulidade e do materialismo, por provas evidentes, permitindo àqueles que deixaram a Terra virem atestar a sua existência, e nos revelar a sua situação feliz ou infeliz.
2. Vivendo o mundo visível no meio do mundo invisível, com o qual está em contato perpétuo, disso resulta que reagem incessantemente um sobre o outro. Essa reação é a fonte de uma multidão de fenômenos considerados sobrenaturais por falta de lhes conhecer a causa.
A ação do mundo invisível sobre o mundo visível, e reciprocamente, é uma das leis, uma das forças da Natureza necessária à harmonia universal, como a lei da atração; se ela viesse a cessar, a harmonia seria perturbada, como num mecanismo do qual uma engrenagem viesse a ser suprimida. Estando essa ação fundada sobre uma lei da Natureza, disso resulta que todos os fenômenos que ela produz nada têm de sobrenatural. Não pareceram tais senão porque não se lhes conhecia a causa; assim se deu com certos fenômenos da eletricidade, da luz, etc.
3. Todas as religiões têm por base a existência de Deus, e por objetivo o futuro do homem depois da morte. Esse futuro, que é para o homem de um interesse capital, está necessariamente ligado à existência do mundo invisível; também o conhecimento desse mundo foi feito, em todos os tempos, o objeto de suas pesquisas e de suas preocupações. Sua atenção, naturalmente, foi levada sobre os fenômenos tendentes a provarem a existência desse mundo, e deles não há, mais concludentes, do que a manifestação dos Espíritos, pelas quais os próprios habitantes do mundo revelam a sua existência; foi por isso que esses fenômenos se tornaram a base da maioria dos dogmas de todas as religiões.
4. Tendo o homem, instintivamente, a intuição de um poder superior, foi levado, em todos os tempos, a atribuir à ação direta desse poder os fenômenos cuja causa lhe era desconhecida, e que passavam, aos seus olhos, por prodígios e efeitos sobrenaturais. Essa tendência é considerada, por alguns incrédulos, como a conseqüência do amor do homem pelo maravilhoso, mas não procuram a fonte desse amor do maravilhoso; ela está muito simplesmente na intuição mal definida de uma ordem de coisas extracorpóreas. Com o progresso da ciência e o conhecimento das leis da Natureza, esses fenômenos, pouco a pouco, passaram do domínio do maravilhoso ao dos efeitos naturais, de tal sorte que o que parecia outrora sobrenatural não o é mais hoje, e que o que o é ainda hoje, não o será mais amanhã.
Dependendo os fenômenos da manifestação dos Espíritos, por sua própria natureza, forneceram um grande contingente aos fatos reputados maravilhosos; mas deveria vir um tempo em que a lei que os rege sendo conhecida, eles reentrariam, como os outros, na ordem dos fatos naturais. Esse tempo chegou, e o Espiritismo, fazendo conhecer essa lei, dá a chave da maioria das passagens incompreendidas das Escrituras sagradas deles fazendo alusão, e de fatos olhados como miraculosos.
Nesta cena do filme “Três Solteirões e um Bebê”, um garoto aparece ao fundo perto da janela, atrás da cortina. Alguns afirmam se tratar de um boneco (uma armação montada pelos produtores), os produtores dizem que não botaram o menino e não descartam a idéia de ser um fantasma de um menino que foi morto na casa onde foi filmado o filme.
5. O caráter do fato miraculoso é de ser insólito e excepcional; é uma derrogação às leis da Natureza; desde que um fenômeno se reproduz em condições idênticas, é que ele está submetido a uma lei, e não é miraculoso. Essa lei pode ser desconhecida, mas nem por isso ela existe menos; o tempo se encarrega de fazê-la conhecer.
O movimento do Sol, ou melhor, da Terra, parado por Josué seria um verdadeiro milagre, porque seria uma derrogação manifesta da lei que rege o movimento dos astros; mas se o fato pudesse se reproduzir nas condições dadas, é que estaria submetido a essa lei, e cessaria, por conseguinte, de ser miraculoso.
6. É erradamente que a Igreja se assuste em ver se restringir o círculo dos fatos miraculosos, porque Deus prova melhor a sua grandeza e o seu poder pelo admirável conjunto de suas leis, do que por algumas infrações a essas mesmas leis, e isso enquanto ela atribui ao demônio o poder de fazer prodígios, o que implicaria que o demônio, podendo interromper o curso das leis divinas, seria tão poderoso quanto Deus. Ousar dizer que o Espírito do mal pode suspender a ação das leis de Deus, é uma blasfêmia e um sacrilégio.
A religião, longe de perder a sua autoridade naquilo que fatos reputados miraculosos passem para a ordem dos fatos naturais, não pode com isso senão ganhar; primeiro, porque, se um fato é erradamente reputado miraculoso, é um erro, a religião não pode senão perder apoiando-se sobre um erro, se, sobretudo, ela se obstinasse em olhar como um milagre o que não o seria; em segundo lugar, quantas pessoas, não admitindo a possibilidade dos milagres, negam os fatos reputados miraculosos, e, por conseqüência, a religião que se apóia sobre esses fatos; se, ao contrário, a possibilidade desses fatos está demonstrada como conseqüência das leis naturais, não há mais lugar para recusá-los, não mais do que a religião que os proclama.
7. Os fatos constatados pela ciência, de maneira peremptória, não podem ser negados por nenhuma crença religiosa contrária. A religião não pode senão ganhar em autoridade, seguindo o progresso dos conhecimentos científicos, e perder em permanecer atrasada ou em protestar contra esses mesmos conhecimentos em nome dos dogmas, porque nenhum dogma poderia prevalecer contra as leis da Natureza, nem anulá-las; um dogma fundado sobre a negação de uma lei da Natureza não pode ser a expressão da verdade.
O Espiritismo, fundado sobre o conhecimento de leis incompreendidas até este dia, não vem destruir os fatos religiosos, mas sancioná-los, dando-lhes uma explicação racional; ele não vem destruir senão as falsas conseqüências que deles foram deduzidas, em conseqüência da ignorância dessas leis, ou de sua interpretação errônea.
8. A ignorância das leis da Natureza, levando o homem a procurar causas fantásticas para os fenômenos que não compreende, é a fonte das idéias supersticiosas, das quais algumas são devidas aos fenômenos espíritas mal compreendidos: o conhecimento das leis que regem esses fenômenos destrói essas idéias supersticiosas, conduzindo as coisas à realidade, e mostrando o limite do possível e do impossível.
9. Os Espíritos, como foi dito, têm um corpo fluídico ao qual se dá o nome de perispírito. A sua substância é haurida no fluido universal, ou cósmico, que o forma e o alimenta, como o ar forma e alimenta o corpo material do homem. O perispírito é mais ou menos etéreo segundo os mundos e segundo o grau de depuração do Espírito. Nos mundos dos Espíritos inferiores, a sua natureza é mais grosseira e mais se aproxima da matéria bruta.
10. Na encarnação, o Espírito conserva o seu perispírito: o corpo não é para ele senão um segundo envoltório mais grosseiro, mais resistente, apropriado às funções que deve cumprir, e do qual ele se despoja na morte.
O perispírito é o intermediário entre o Espírito e o corpo; é o órgão de transmissão de todas as sensações. Para aquelas que vêm do exterior, pode-se dizer que o corpo recebe a impressão; o perispírito a transmite, e o Espírito, o ser sensível e inteligente, a recebe; quando o ato parte da iniciativa do Espírito, pode-se dizer que o Espírito quer, que o perispírito transmite, e o corpo executa.
11. O perispírito, de nenhum modo, está encerrado nos limites do corpo, como numa caixa; pela sua natureza fluídica, ele é expansível; irradia ao redor e forma, em torno do corpo, uma atmosfera que o pensamento e a força de vontade podem estender mais ou menos; de onde se segue que as pessoas que, de nenhum modo, não estão em contato corporal, podem estar pelo seu perispírito e se transmitir impressões, com o seu desconhecimento, alguma vezes mesmo a intuição de seus pensamentos.
12. Sendo o perispírito um dos elementos constitutivos do homem, desempenha um papel importante em todos os fenômenos psicológicos e, até um certo ponto, nos fenômenos fisiológicos e patológicos. Quando as ciências médicas tiverem em conta a influência do elemento espiritual na economia, terão dado um grande passo, e horizontes inteiramente novos se abrirão diante delas; muitas causas de enfermidades serão então explicadas e poderosos meios de combatê-las serão encontrados.
13. É por meio do perispírito que os Espíritos agem sobre a matéria inerte e produzem os diferentes fenômenos das manifestações. A sua natureza etérea não poderia ser um obstáculo, uma vez que se sabe que os mais poderosos motores se encontram nos fluidos mais rarefeitos e fluidos imponderáveis. Não há, pois, de nenhum modo, lugar para se espantar de ver, com a ajuda dessa alavanca, os Espíritos produzirem certos efeitos físicos, tais como pancadas e ruídos de todas as espécies, levantamento de objetos, transportados ou projetados no espaço. Não há nenhuma necessidade, para disso se dar conta, de recorrer ao maravilhoso ou aos efeitos sobrenaturais.
14. Os Espíritos, agindo sobre a matéria, podem se manifestar de várias maneiras diferentes: por efeitos físicos, tais como os ruídos e o movimento de objetos; pela transmissão do pensamento, pela visão, o ouvido, a palavra, o toque, a escrita, o desenho, a música, etc., em uma palavra, por todos os meios que podem servir para colocá-los em relação com os homens.
15. As manifestações dos Espíritos podem ser espontâneas ou provocadas. As primeiras ocorrem inopinadamente e de improviso; elas se produzem, freqüentemente, nas pessoas mais estranhas às idéias espíritas. Em certos casos, e sob o império de certas circunstâncias, as manifestações podem ser provocadas pela vontade, sob a influência de pessoas dotadas, para esse efeito, de faculdades especiais.
As manifestações espontâneas ocorreram em todas as épocas e em todos os países; o meio de provocá-las, certamente, era também conhecido na antiguidade, mas era o privilégio de certas castas que não o revelavam senão a raros iniciados, sob condições rigorosas, e escondendo-o ao vulgo, a fim de dominá-lo pelo prestígio de uma força oculta. Não obstante, perpetuou-se através das idades até os nossos dias, em alguns indivíduos, mas quase sempre desfiguradas pela superstição ou misturada às práticas ridículas da magia, o que havia contribuído para desacreditá-la. Isso não fora, até então, senão germes lançados aqui e ali; a Providência reservara à nossa época o conhecimento completo e a vulgarização desses fenômenos, para livrá-los de suas más ligas e fazê-los servirem para a melhoria da Humanidade, hoje madura para compreendê-los e deles tirar as conseqüências.
16. Pela sua natureza, e em seu estado normal, o perispírito é invisível, e tem isso em comum com uma multidão de fluidos que sabemos existir, e que, entretanto, jamais vimos; mas ele pode também, do mesmo modo que certos fluidos, sofrer modificações que o tornam perceptível à visão, seja por uma espécie de condensação, seja por uma mudança na disposição molecular; pode mesmo adquirir as propriedades de um corpo sólido e tangível, mas pode instantaneamente retomar o seu estado etéreo e invisível. Pode-se dar conta desse efeito pelo do vapor que pode passar da invisibilidade ao estado brumoso, depois líquido, depois sólido, e vice versa.
Esses diferentes estados do perispírito são o resultado da vontade do Espírito, e não de uma causa física exterior, como no gás. Quando um Espírito aparece, é que ele coloca o seu perispírito no estado necessário para torná-lo visível. Mas a sua vontade nem sempre basta: é necessário, para que essa modificação do perispírito possa se operar, um concurso de circunstâncias independentes dele; é necessário, por outro lado, que o Espírito tenha a permissão de se fazer ver por tal pessoa, o que nem sempre lhe é concedido, ou não o é senão em certas circunstâncias, por motivos que não podemos apreciar. (Ver O Livro dos Médiuns, página 132.)
Uma outra propriedade do perispírito e que se prende à sua natureza etérea, é a penetrabilidade. Nenhuma matéria lhe é obstáculo; ele as atravessa todas, como a luz atravessa os corpos transparentes. É por isso que não há clausura que possa se opor à entrada dos Espíritos; eles vão visitar o prisioneiro em seu cárcere tão facilmente quanto o homem que está no meio dos campos.
17. As manifestações visuais mais comuns ocorrem no sono, pelos sonhos: são as visões. As aparições propriamente ditas ocorrem no estado de vigília, e é então que se goza da plenitude e da inteira liberdade de suas faculdades. Elas se apresentam, geralmente, sob uma forma vaporosa e diáfana, algumas vezes vagas e indecisas: freqüentemente, à primeira vista, de um clarão esbranquiçado, cujos contornos se desenham pouco a pouco. De outras vezes, as formas são nitidamente acentuadas e se lhe distinguem os menores traços do rosto, ao ponto de se poder fazer uma descrição muito precisa. Os passos, o aspecto são semelhantes ao que era o Espírito quando vivo.
18. Podendo tomar todas as aparências, o Espírito se apresenta sob aquela que pode melhor fazê-lo reconhecer, e se tal é o seu desejo. Também, se bem que, como Espírito, ele não tenha nenhuma enfermidade corpórea, se mostrará estropiado, coxo, ferido, com cicatrizes, se isso for necessário para constatar a sua identidade. Ocorre o mesmo com a roupa; a dos Espíritos, que nada conservaram das quedas terrestres, se compõe, o mais ordinariamente, de uma roupagem de longos franzidos flutuantes, com uma cabeleira ondulante e graciosa.
Freqüentemente, os Espíritos se apresentam com os atributos característicos de sua elevação, como uma auréola, asas para aqueles que se podem considerar como anjos, um aspecto luminoso resplandecente, ao passo que outros têm aqueles que lembram as suas ocupações terrestres; assim, um guerreiro poderá aparecer com a sua armadura, um sábio com os livros, um assassino com um punhal, etc. Os Espíritos superiores têm um rosto belo, nobre e sereno; os mais inferiores têm alguma coisa de feroz e de bestial, e alguns trazem ainda as marcas de crimes que cometeram, ou suplícios que suportaram; para eles, essa aparência é uma realidade; quer dizer que se crêem ser tal como parecem; é para eles um castigo.
19. O Espírito, que quer ou pode aparecer, algumas vezes, reveste uma forma mais limpa ainda, tendo todas as aparências de um corpo sólido, ao ponto de produzir uma ilusão completa, e de fazer crer que se está diante de um ser corpóreo.
Em alguns casos, e sob o império de certas circunstâncias, a tangibilidade pode se tornar real, quer dizer, que se pode tocar, apalpar, sentir a mesma resistência, o mesmo calor que da parte de um corpo vivo, o que não impede de se desvanecer com a rapidez do raio. Poder-se-ia, pois, estar em presença de um Espírito. Com quem se trocariam as palavras e os atos da vida, crendo ter relações com um simples mortal e sem desconfiar que era um Espírito.
20. Qualquer que seja o aspecto sob o qual um Espírito se apresente, mesmo sob a forma tangível, ele pode, no mesmo instante, não ser visível senão somente para alguns; numa assembléia poderia, pois, não se mostrar senão a um ou vários membros; de duas pessoas, colocadas uma ao lado da outra, uma pode vê-lo e tocá-lo, a outra nada vê e nada sente.
O fenômeno da aparição a uma única pessoa, entre várias que se acham juntas, se explica pela necessidade , para que se produza, de uma combinação entre o fluido perispiritual do Espírito e o da pessoa; é necessário, para isso, que haja entre esses fluidos uma espécie de afinidade que favoreça a combinação; se o Espírito não encontra aptidão orgânica necessária, o fenômeno da aparição não pode se reproduzir; se a aptidão existe, o Espírito está livre para aproveitá-la ou não; de onde resulta que, se duas pessoas igualmente dotadas sob esse aspecto, se encontrem juntas, o Espírito pode operar a combinação fluídica com aquela das duas, a quem quer se mostrar; não o fazendo com a outra, esta não o verá. Assim ocorreria com dois indivíduos, cada um tendo um véu sobre os olhos, se um terceiro indivíduo quer se mostrar a um dos dois somente, ele não levantará senão um véu; mas àquele que fosse cego, seria em vão que levantaria o véu, a faculdade de ver não lhe seria dada por isso.
21. As aparições tangíveis são muito raras, mas as aparições vaporosas são freqüentes; elas o são sobretudo no momento da morte; o Espírito desligado parece apressar-se em ir rever os seus parentes e seus amigos, como para adverti-los que vem de deixar a Terra, e dizer-lhes que ele vive sempre. Que cada um recolha as suas lembranças, e ver-se-á quantos fatos autênticos desse gênero, dos quais não se dava conta, ocorreram não só à noite, mas em pleno dia e no mais completo estado de vigília.
22. O perispírito das pessoas vivas goza das mesmas propriedades que o dos Espíritos. Como isso foi dito, ele não está, de nenhum modo, confinado no corpo, mas irradia e forma, ao seu redor, uma espécie de atmosfera fluídica; ora, pode ocorrer que, em certos casos, e sob o império das mesmas circunstâncias, ele sofra uma transformação análoga à que foi descrita; a forma real e material do corpo pode se apagar sob essa camada fluídica, podendo-se assim se exprimir, e revestir, momentaneamente, uma aparência toda diferente, mesmo a de uma outra pessoa, ou do Espírito que combine o seu fluido com o do indivíduo, ou bem ainda dar a um rosto feio um aspecto belo e radiante. Tal é o fenômeno designado sob o nome de transfiguração, fenômeno bastante freqüente, e que se produz principalmente quando as circunstâncias provocam uma expansão mais abundante de fluido.
O fenômeno da transfiguração pode se manifestar com uma intensidade muito diferente, segundo o grau de depuração do perispírito, grau que corresponde sempre ao da elevação moral do Espírito. Limita-se, às vezes, a uma simples mudança do aspecto da fisionomia, como pode dar ao perispírito uma aparência luminosa e esplêndida.
A forma material pode, pois, desaparecer sob o fluido perispiritual, mas não há necessidade, por esse fluido, de revestir um outro aspecto; às vezes, pode simplesmente ocultar um corpo inerte , ou vivo, e torná-lo invisível aos olhos de uma ou de várias pessoas, como o faria uma camada de vapor.
Não tomamos as coisas atuais senão como pontos de comparação, e não em vista de estabelecer uma analogia absoluta, que não existe.
23. Esses fenômenos não podem parecer estranhos senão porque não se conhecem as propriedade do fluido perispiritual; é para nós um corpo novo que deve ter propriedades novas, e que não se pode estudar pelos procedimentos ordinários da ciência, mas que não são elas menos propriedades naturais, nada tendo de maravilhoso a não ser a novidade.
24. Só o corpo repousa durante o sono, mas o Espírito não dorme; aproveita do repouso do corpo, e dos momentos em que a sua presença não é necessária, para agir separadamente e ir onde quer; goza de sua liberdade e da plenitude de suas faculdades. Durante a vida, o Espírito jamais está completamente separado do corpo; para qualquer distância que se transporte, está sempre ligado a ele por um laço fluídico que serve para chamá-lo, desde que a sua presença seja necessária; esse laço não se rompe senão com a morte.
“O sono livra em parte a alma do corpo. Quando se dorme, está-se, momentaneamente, no estado em que se encontra, de maneira fixa, depois da morte. Os Espíritos que estão desligados da matéria, depois de sua morte, têm sonos inteligentes; aqueles, quando dormem, se unem à sociedade dos outros seres superiores a eles; viajam, conversam e se instruem com eles; trabalham mesmo em obras que encontram todas feitas quando morrem. Isto vos deve ensinar, uma vez mais, a não temer a morte, uma vez que morreis todos os dias, segundo a palavra de um santo.
“Eis ali para os Espíritos elevados; mas para a massa dos homens que, na morte, devem ficar muitas horas nessa perturbação, nessa incerteza da qual vos falei, aqueles vão, seja para mundos inferiores à Terra, onde antigas afeições os chamam, seja a procurar prazeres talvez ainda mais baixos do que aqueles que têm aqui; vão haurir doutrinas ainda mais vis, mais ignóbeis, mais nocivas do que aquelas que professavam em vosso meio. E o que engendra a simpatia sobre a Terra não é outra coisa que esse fato, que se sente ao despertar, aproximar, pelo coração, daqueles com quem se veio de passar oito a nove horas de felicidade ou de prazer. O que explica também essas antipatias invencíveis, é que se sabe, no fundo do coração, que aquelas outras pessoas têm uma outra consciência do que a nossa, porque são conhecidos sem tê-los visto com os olhos. É, ainda, o que explica a indiferença porque não se liga a fazer novos amigos, quando se sabe que se tem outros que nos amam e nos estimam. Em uma palavra, o sono influi mais do que pensais sobre a vossa vida.
“Pelo efeito do sono, os Espíritos encarnados estão sempre em relação com o mundo dos Espíritos, e é o que faz com que os Espíritos superiores consintam, sem muita repulsa, em encarnar entre vós. Deus quis que, durante o seu contato com o vício, eles possam ir se retemperar na fonte do bem, para eles mesmos não falirem, eles que vêm instruir os outros. O sono é a porta que Deus lhes abre para os amigos do céu; é a recreação depois do trabalho, esperando a grande libertação, a liberação final, que deverá restituí-los ao seu verdadeiro meio.
“O sonho é a lembrança do que o Espírito viu durante o sono: mas notai que não sonhais sempre, porque não vos lembrais do que vistes. Não é a vossa alma em todo o seu desenvolvimento; freqüentemente, não é senão a lembrança da perturbação que acompanha a vossa partida ou a vossa reentrada, à qual se junta o que fizestes ou o que vos preocupou no estado de vigília; sem isso, como explicaríeis esses sonhos absurdos que têm os mais sábios como os mais simples? Os maus Espíritos também se servem dos sonhos para atormentar as almas fracas e pusilâmines.
“A incoerência dos sonhos se explica, ainda, pelas lacunas que a lembrança incompleta produz daquilo que apareceu em sonho. Tal seria um relato do qual se tivessem mutilado ao acaso as frases: reunidos os fragmentos que restassem, perderia toda a significação razoável.
“De resto, vereis em pouco se desenvolver uma outra espécie de sonho; ela é tão antiga quanto as que conheceis, mas a ignorais. O sonho de Jeanne D’Arc, o sonho de Jacó, o sonho dos profetas judeus e de alguns adivinhadores indianos; aquele sonho é a lembrança da alma inteiramente desligada do corpo, a lembrança dessa segunda vida, da qual vos falava há pouco. ” (O Livro dos Espíritos, p. 177 e seguintes.)
25. A independência e a emancipação da alma se manifestam, sobretudo, de maneira evidente, no fenômeno do sonambulismo natural e magnético, na catalepsia e na letargia. A lucidez sonambúlica não é outra senão a faculdade que a alma possui de ver e de sentir sem o socorro dos órgãos materiais. Essa faculdade é um dos seus atributos; ela reside em todo o seu ser; os órgãos do corpo são os canais restritos por onde lhe chegam certas percepções. A visão à distância, que certos sonâmbulos possuem, provém do deslocamento da alma, que vê o que se passa nos lugares para onde se transporta. Em suas peregrinações, está sempre revestida de seu perispírito, agente de suas sensações, mas que jamais está inteiramente desligado do corpo, assim como dissemos. O desligamento da alma produz a inércia do corpo que parece, às vezes, privado de vida.
26. Esse desligamento pode se produzir igualmente, em diversos graus, no estado de vigília, mas então o corpo não goza jamais completamente de sua atividade normal; há sempre uma certa absorção, um desligamento mais ou menos completo das coisas terrestres; o corpo não dorme, ele caminha, age, mas os olhos olham sem ver; compreende-se que a alma está alhures. Como no sonambulismo, ela vê as coisas ausentes; tem percepções e sensações que nos são desconhecidas; às vezes, tem a presciência de certos acontecimentos futuros pela ligação que lhe reconhece com as coisas presentes. Penetrando o mundo invisível, vê os Espíritos com os quais ela pode conversar, e dos quais pode nos transmitir o pensamento.
O esquecimento do passado segue, bastante e geralmente, o retorno ao estado normal, mas algumas vezes conserva dele uma lembrança mais ou menos vaga, como seria a de um sonho.
27. A emancipação da alma amortece, às vezes, as sensações físicas ao ponto de produzir uma verdadeira insensibilidade que, nos momentos de exaltação, pode fazer suportar com indiferença as mais vivas dores. Essa insensibilidade provém do desligamento do perispírito, agente de transmissão das sensações corpóreas: o Espírito ausente não sente as feridas do corpo.
28. A faculdade emancipadora da alma, na sua manifestação mais simples, produz o que se chama o sonho desperto; ela dá também, a certas pessoas, a presciência que constitui os pressentimentos; num maior grau de desenvolvimento, produz o fenômeno designado sob o nome de segunda vista, dupla vista ou sonambulismo desperto.
29. O êxtase é o grau máximo de emancipação da alma. “No sonho e no sonambulismo, a alma erra nos mundos terrestres; no êxtase, ela penetra num mundo desconhecido, no dos Espíritos etéreos com os quais entra em comunicação, sem, todavia, poder ultrapassar certos limites, que não poderia transpor sem quebrar totalmente os laços que a prendem ao corpo. Um brilho resplandecente e todo novo a envolve, harmonias desconhecidas sobre a Terra, a arrebatam, um bem-estar indefinível a penetra; ela goza, por antecipação, da beatitude celeste, e se pode dizer que põe um pé no limiar da eternidade. No êxtase, o aniquilamento do corpo é quase completo; não há mais, por assim dizer, senão a vida orgânica, e sente-se que a alma a ela não se prende senão por um fio que um esforço mais forte faria romper sem retorno.” (O Livro dos Espíritos, nº 455.)
30. O êxtase, não mais do que os outros graus de emancipação da alma, não está isento de erros; é por isso que as revelações dos extáticos estão longe de ser sempre a expressão da verdade absoluta. A razão disso está na imperfeição do Espírito humano; não é senão quando chegou no cimo da escala, que ele pode julgar sadiamente as coisas; até lá, não lhe é dado de tudo ver nem de tudo compreender. Se, depois da morte, então que o desligamento é completo, ele não vê sempre com justeza; se há os que estão ainda imbuídos dos preconceitos da vida , que não compreendem as coisas do mundo invisível onde estão, com mais forte razão, deve ocorrer o mesmo com o Espírito preso ainda à carne.
Há, algumas vezes, entre os extáticos mais exaltação do que verdadeira lucidez, ou, melhor dizendo, a sua exaltação prejudica a sua lucidez; é por isso que as suas revelações, freqüentemente, são uma mistura de verdades e de erros, de coisas sublimes ou mesmo ridículas. Os Espíritos inferiores se aproveitam também dessa exaltação, que é sempre uma causa de fraqueza quando não se sabe dominá-la, para dominar o extático, e, para esse efeito, eles revestem aos seus olhos aparências que o mantêm em suas idéias ou preconceitos, de sorte que as suas visões e as suas revelações não são, freqüentemente, senão um reflexo de suas crenças. É um escolho ao qual não escapam senão os Espíritos de uma ordem elevada, e contra o qual o observador deve se ter em guarda.
31. Há pessoas cujo perispírito é de tal forma identificado com o corpo, que o desligamento da alma não se opera senão com uma extrema dificuldade, mesmo no momento da morte; geralmente, são as que viveram mais materialmente; são também aquelas cuja morte é a mais penosa, a mais cheia de angústias, e a agonia a mais longa e a mais dolorosa; mas há outras, ao contrário, cuja alma prende-se ao corpo por laços tão fracos, que a separação se faz sem abalos, com a maior facilidade e, freqüentemente, antes da morte do corpo; à aproximação do fim da vida, a alma já entrevê o mundo onde ela vai entrar, e aspira ao momento de sua libertação completa.
32. A faculdade emancipadora da alma, e seu desligamento do corpo durante a vida, podem dar lugar a fenômenos análogos àqueles que apresentam os Espíritos desencarnados. Enquanto o corpo está no sono, o Espírito, se transportando para diversos lugares, pode se tornar visível e aparecer sob uma forma vaporosa, seja em sonho, seja no estado de vigília; pode, igualmente, se apresentar sob a forma tangível, ou pelo menos com uma aparência de tal modo identificada com a realidade, que várias pessoas podem estar na verdade afirmando tê-lo visto, no mesmo momento, em dois pontos diferentes; ele o fora com efeito, mas de um lado só estava o seu corpo verdadeiro, e do outro não havia senão o Espírito. De resto, esse fenômeno é muito raro, é que deu lugar à crença nos homens duplos, e que é designada sob o nome de bicorporeidade.
Por extraordinário que ele seja, não entra menos, como todos os outros, na ordem dos fenômenos naturais, uma vez que repousa sobre as propriedades do perispírito e sobre uma lei da Natureza.
33. Os médiuns são as pessoas aptas a receberem a influência dos Espíritos e transmitirem os seus pensamentos.
Toda pessoa que sente, num grau qualquer, a influência dos Espíritos é, por isso mesmo, médium. Essa faculdade é inerente ao homem, e, por conseguinte, não é, de nenhum modo, um privilégio exclusivo: também há poucos nos quais não se lhe encontra algum rudimento. Pode-se, pois, dizer que todo o mundo, com pequena diferença, é médium; todavia, no uso, essa qualificação não se aplica senão naqueles nos quais a faculdade mediúnica se manifesta por efeitos ostensivos de uma certa intensidade.
34. O fluido perispiritual é o agente de todos os fenômenos espíritas; esses fenômenos não podem se operar senão pela ação recíproca dos fluidos emitidos pelo médium e pelo Espírito. O desenvolvimento da faculdade mediúnica prende-se à natureza mais ou menos expansível do perispírito do médium e à sua assimilação, mais ou menos fácil, com o dos Espíritos; prende-se, por conseqüência, ao organismo, e pode ser desenvolvida quando o princípio existe, mas não pode ser adquirida quando esse princípio não existe. A predisposição mediúnica é independente do sexo, da idade e do temperamento; encontram-se médiuns em todas as categorias de indivíduos, desde a mais tenra idade, até a mais avançada.
35. As relações entre os Espíritos e os médiuns se estabelecem por meio de seu perispírito; a facilidade dessas relações depende do grau de afinidade que existe entre os dois fluidos; alguns há que se assimilam facilmente e outros que se repelem; de onde se segue que não basta ser médium para se comunicar indistintamente com todos os Espíritos; há médiuns que não podem se comunicar senão com certos Espíritos, ou com certas categorias de Espíritos, e outros que não o podem senão por uma transmissão de pensamento, sem nenhuma manifestação exterior.
36. Pela assimilação dos fluidos perispirituais, o Espírito se identifica, por assim dizer, com a pessoa que quer influenciar; não somente lhe transmite o seu pensamento, mas pode exercer sobre ela uma ação física, fazê-la agir ou falar à sua vontade, fazê-la dizer o que não quer; em uma palavra, servir-se de seus órgãos como se fossem os seus; pode, enfim, neutralizar a ação de seu próprio Espírito e paralisar-lhe o livre arbítrio. Os bons Espíritos se servem dessa influência para o bem, e os maus Espíritos para o mal.
37. Os Espíritos podem se manifestar de uma infinidade de maneiras diferentes, e não o podem senão com a condição de encontrarem uma pessoa apta a receber e a transmitir tal ou tal gênero de impressão, segundo a sua aptidão; ora, como não há nenhuma delas possuindo todas as aptidões no mesmo grau, disso resulta que umas obtêm efeitos impossíveis para as outras. Essa diversidade na aptidão produz diferentes variedades de médiuns.
38. A vontade do médium, de nenhum modo, é sempre necessária; o Espírito que quer se manifestar procura o indivíduo apto a receber a sua impressão, e dele se serve, freqüentemente, com o seu desconhecimento; outras pessoas, ao contrário, tendo a consciência de sua faculdade, podem provocar certas manifestações; daí duas categorias de médiuns: os médiuns inconscientes e os médiuns facultativos.
No primeiro caso, a iniciativa vem do Espírito: no segundo, vem do médium.
39. Os médiuns facultativos não se encontram senão entre as pessoas que têm um conhecimento mais ou menos completo dos meios de se comunicar com os Espíritos, e podem assim ter a vontade de se servirem de suas faculdades; os médiuns inconscientes, ao contrário, se encontram entre aqueles que não têm nenhuma idéia nem do Espiritismo, nem dos Espíritos, mesmo entre os mais incrédulos, e que servem de instrumento sem o saberem e sem o quererem. Todos os gêneros de fenômenos espíritas podem se produzir pela sua influência, e foram encontrados em todas as épocas e entre todos os povos. O ignorância e a credulidade lhes atribuíram um poder sobrenatural, e, segundo os lugares e os tempos, deles fizeram santos, feiticeiros, loucos ou visionários; o Espiritismo nos mostra neles a simples manifestação espontânea de uma faculdade natural.
40. Entre as diferentes variedades de médiuns, distinguem-se principalmente: os médiuns de efeitos físicos; os médiuns sensitivos ou impressionáveis; os médiuns audientes, falantes, videntes, inspirados, sonâmbulos, curadores, escreventes ou psicógrafos, etc.; não descreveremos aqui senão os mais essenciais (1).
(1) Para os detalhes completos, ver O Livro dos Médiuns.
41. Médiuns de efeitos físicos. – São mais especialmente aptos a produzirem fenômenos materiais, tais como o movimento de corpos inertes, os ruídos, os deslocamentos, os soerguimentos e a translação de objetos, etc. Esses fenômenos podem ser espontâneos ou provocados; em todos os casos, requerem o concurso, voluntário ou involuntário, de médiuns dotados de faculdades especiais. Tais efeitos são geralmente oriundos de Espíritos de uma ordem inferior, os Espíritos elevados não se ocupam senão das comunicações inteligentes e instrutivas.
42. Médiuns sensitivos ou impressionáveis. – Designam-se assim as pessoas suscetíveis de sentirem a presença dos Espíritos por uma vaga impressão, uma espécie de toque leve sobre todos os membros, dos quais não podem se dar conta. Esta faculdade pode adquirir uma tal delicadeza que, aquele que dela está dotado reconhece, pela impressão que sente, não só a natureza, boa ou má, do Espírito que está ao seu lado, mas mesmo a sua individualidade, como o cego reconhece, instintivamente, a aproximação de tal ou tal pessoa. Um bom Espírito causa sempre uma impressão doce e agradável; a de um mau, ao contrário, é penosa, ansiosa e desagradável; há como um cheiro de impureza.
43. Médiuns audientes. – Eles ouvem a voz dos Espíritos; algumas vezes, é uma voz íntima que se faz ouvir no foro interior; de outras vezes, é uma voz exterior, clara e distinta como a de uma pessoa viva. Os médiuns audientes podem, assim, entrar em conversação com os Espíritos. Quando têm o hábito de se comunicarem com certos Espíritos, eles o reconhecem imediatamente pelo som de sua voz. Quando não se é, por si mesmo, médium audiente, se pode comunicar com um Espírito por intermédio de um médium audiente que lhe transmite as palavras.
44. Médiuns falantes. – Os médiuns audientes, que não fazem senão transmitir o que ouvem não são, propriamente falando, Médiuns falantes; estes últimos, muito freqüentemente, nada ouvem; neles, o Espírito atua sobre os órgãos da palavra, como nos médiuns escreventes agem sobre a mão. O Espírito, querendo se comunicar, se serve do órgão que encontra mais flexível; a um toma a mão, a um outro a palavra, a um terceiro o ouvido. O médium falante se exprime, geralmente, sem ter a consciência do que diz e, freqüentemente, diz coisas completamente fora das suas idéias habituais, de seus conhecimentos e mesmo do alcance de sua inteligência. Vêem-se, às vezes, pessoas iletradas e de uma inteligência vulgar, se exprimirem, naqueles momentos, com uma verdadeira eloqüência e tratarem, com uma incontestável superioridade, questões sobre as quais seriam incapazes de emitir uma opinião no estado normal.
Embora o médium falante esteja perfeitamente desperto, conserva raramente a lembrança daquilo que disse. A passividade, no entanto, não é sempre completa; há os que têm a intuição do que dizem no mesmo momento em que pronunciam as palavras.
A palavra é, no médium falante, um instrumento do qual se serve o Espírito, com o qual uma pessoa estranha pode entrar em comunicação, como pode fazê-lo por intermédio de um médium audiente. Há esta diferença entre o médium audiente e o médium falante, de que o primeiro fala voluntariamente para repetir o que ouve, ao passo que o segundo fala involuntariamente.
45. Médiuns videntes. – Dá-se este nome às pessoas que, no estado normal, e perfeitamente despertas, gozam da faculdade de ver os Espíritos. A possibilidade de vê-los em sonho resulta, sem contradita, de uma espécie de mediunidade, mas não constitui, propriamente falando, os médiuns videntes. Explicamos a teoria desse fenômeno no capítulo das Visões e aparições, de O Livro dos Médiuns.
As aparições de pessoas que se amou ou conheceu são bastante freqüentes; e, se bem que aqueles que a tiveram possam ser considerados como médiuns videntes, dá-se, mais geralmente, esse nome àqueles que gozam, de maneira de alguma sorte permanente, da faculdade de ver quase todos os Espíritos. Entre eles, há os que não vêem senão os Espíritos que se evocam e dos quais podem fazer a discrição com uma minuciosa exatidão; descrevem, nos menores detalhes, os seus gestos, a expressão de sua fisionomia, os traços do rosto, a roupa e até os sentimentos dos quais parecem animados. Há outros nos quais essa faculdade é ainda mais geral; eles vêem toda a população espírita ambiente ir, vir, e, se poderia dizer, cuidar de seus negócios. Esses médiuns jamais estão só: sempre têm com eles uma sociedade que podem escolher à sua vontade, segundo o seu gosto, porque podem, pela sua vontade, afastar os Espíritos que não lhes convêm, ou atrair aqueles que lhes são simpáticos.
46. Médiuns sonâmbulos. – O sonambulismo pode ser considerado como uma variedade da faculdade mediúnica, ou, melhor dizendo, são duas ordens de fenômenos que, muito freqüentemente, se acham reunidos. O sonâmbulo age sob a influência de seu próprio Espírito; é a sua alma que, nos momentos de emancipação, vê, ouve e percebe fora dos limites de seus sentidos; o que ele exprime, haure em si mesmo; suas idéias, em geral, são mais justas do que no estado normal, seus conhecimentos mais extensos, porque a sua alma está livre; em uma palavra, ele vive por antecipação a vida dos Espíritos. O médium, ao contrário, é o instrumento de uma inteligência estranha; é passivo, e o que diz não vem dele. Em resumo, o sonâmbulo exprime o seu próprio pensamento, e o médium exprime o de um outro. Mas o Espírito que se comunica a um médium comum, pode do mesmo modo fazê-lo a um sonâmbulo; freqüentemente mesmo, o estado de emancipação da alma, durante o sonambulismo, torna essa comunicação mais fácil. Muitos sonâmbulos vêem os Espíritos e os descrevem com tanta precisão quanto os médiuns videntes; podem conversar com eles e nos transmitir o seu pensamento; o que dizem fora do círculo de seus conhecimentos pessoais, freqüentemente, lhes é sugerido por outros Espíritos.
47. Médiuns inspirados. – Estes médiuns são aqueles nos quais os sinais exteriores da mediunidade são os menos aparentes; a ação dos Espíritos é aqui toda intelectual e toda moral, e se revela nas menores circunstâncias da vida, como nas maiores concepções; é sob esse aspecto, sobretudo, que se pode dizer que todos são médiuns, porque não há ninguém que não tenha os seus Espíritos protetores e familiares que fazem todos os esforços para sugerirem aos seus protegidos pensamentos salutares. No inspirado, amiúde, é difícil distinguir o pensamento próprio daquele que lhe é sugerido; o que caracteriza este último é, sobretudo, a espontaneidade.
A inspiração se torna mais evidente nos grandes trabalhos da inteligência. Os homens de gênio em todos os gêneros, artistas, sábios, literatos, oradores, sem dúvida, são Espíritos avançados, capazes de, por eles mesmos, compreender e conceber grandes coisas; ora, é precisamente porque eles são julgados capazes que os Espíritos, que querem cumprir certos trabalhos, lhes sugerem as idéias necessárias, e é assim que são, o mais freqüentemente, médiuns sem o saberem. Têm, todavia, uma vaga intuição de uma assistência estranha, porque aquele que apela à inspiração, outra coisa não faz do que uma evocação; se não esperava ser ouvido, porque escreveria tão freqüentemente: Meu bom gênio, venha em minha ajuda!
48. Médiuns de pressentimentos. – Pessoas que, em certas circunstâncias, têm uma vaga intuição das coisas futuras vulgares. Essa intuição pode provir de uma espécie de dupla vista que permite entrever as conseqüências das coisas presentes e a filiação dos acontecimentos; mas, freqüentemente, ela é o fato de comunicações ocultas que deles faz uma variedade dos médiuns inspirados.
49. Médiuns proféticos. – É igualmente uma variedade dos médiuns inspirados; recebem, com a permissão de Deus, e com mais precisão do que os médiuns de pressentimentos, a revelação das coisas futuras de um interesse geral, e que estão encarregados de fazer os homens conhecerem, para a sua instrução. O pressentimento é dado, para a maioria dos homens, de alguma sorte para o seu uso pessoal; o dom da profecia, ao contrário, é excepcional e implica a idéia de uma missão sobre a Terra.
Se há verdadeiros profetas, há mais ainda de falsos, e que tomam os sonhos de sua imaginação por suas revelações, quando não são velhacos que se fazem passar por tal por ambição.
O verdadeiro profeta é um homem de bem inspirado por Deus; pode-se reconhecê-lo por suas palavras e suas ações; Deus não pode se servir da boca do mentiroso para ensinar a verdade. (O Livro dos Espíritos, nº 624.)
50. Médiuns escreventes ou psicógrafos. – Designa-se com esse nome as pessoas que escrevem sob a influência dos Espíritos. Do mesmo modo que um Espírito pode agir sobre os órgãos da palavra, de um médium falante, para lhe fazer pronunciar as palavras, ele pode se servir de sua mão para fazê-lo escrever. A mediunidade psicográfica apresenta três variedades muito distintas: os médiuns mecânicos, intuitivos e semimecânicos.
No médium mecânico, o Espírito age diretamente sobre a mão à qual dá o impulso. O que caracteriza este gênero de mediunidade é a inconsciência absoluta do que se escreve; o movimento da mão é independente da vontade; ela prossegue sem interrupção, e apesar do médium, enquanto o Espírito tenha alguma coisa para dizer, e se detém quando ele termina.
No médium intuitivo, a transmissão do pensamento se faz por intermédio do Espírito do médium. O Espírito estranho, nesse caso, não age sobre a mão para dirigi-la, age sobre a alma com a qual se identifica e à qual imprime a sua vontade e suas idéias; ele recebe o pensamento estranho e o transcreve. Nessa situação, o médium escreve voluntariamente e tem a consciência do que escreve, embora isso não seja o seu próprio pensamento.
Freqüentemente, é bastante difícil distinguir o pensamento próprio do médium daquele que lhe é sugerido, o que leva muitos médiuns desse gênero a duvidarem de sua faculdade. Pode-se reconhecer o pensamento sugerido no fato de que ele não é jamais preconcebido; que ele nasce à medida que se escreve e, com freqüência, é contrário à idéia prévia que se formou; pode mesmo estar fora dos conhecimentos e das capacidades do médium.
Há uma grande analogia entre a mediunidade intuitiva e a inspiração; a diferença consiste em que a primeira, o mais feqüentemente, está restrita às questões da atualidade, e pode se aplicar fora das capacidades intelectuais do médium; um médium poderá tratar, por intuição, de um assunto ao qual é completamente estranho. A inspiração se estende sobre um campo mais vasto e vem, geralmente, em ajuda às capacidades e às preocupações do Espírito encarnado. Os traços da mediunidade são, em geral, menos evidentes.
O médium semimecânico ou semi-intuitivo participa das duas outras. No médium puramente mecânico, o movimento da mão é independente da vontade; no médium intuitivo, o movimento é voluntário e facultativo. O médium semimecânico sente um impulso dado à sua mão, apesar dele, mas, ao mesmo tempo, tem consciência daquilo que escreve à medida que as palavras se formam. No primeiro, o pensamento segue o ato da escrita; no segundo, precede-o; no terceiro, ele o acompanha.
51. Não sendo o médium senão um instrumento que recebe e transmite o pensamento de um Espírito estranho, que segue o impulso mecânico que lhe é dado, não há nada que ele não possa fazer fora de seus conhecimentos, se está dotado da flexibilidade e da aptidão mediúnica necessárias. Assim é que existem médiuns desenhistas, pintores, músicos, versificadores, embora estranhos à arte do desenho, da pintura, da música e da poesia; os médiuns iletrados, que escrevem sem saber nem ler nem escrever; os médiuns polígrafos, que reproduzem diferentes gêneros de escrita, e, algumas vezes, com perfeita exatidão a que o Espírito tinha quando vivo; os médiuns poliglotas, que falam ou escrevem em línguas que lhe são desconhecidas, etc.
52. Médiuns curadores. – Este gênero de mediunidade consiste na faculdade, que certas pessoas possuem, de curar pelo simples toque, pela imposição das mãos, o olhar, um gesto mesmo, sem a ajuda de nenhum medicamento. Esta faculdade, incontestavelmente, tem o seu princípio na força magnética; dela difere, todavia, pela energia e pela instantaneidade da ação, ao passo que as curas magnéticas exigem um tratamento metódico mais ou menos longo. Todos os magnetizadores estão quase aptos para curar se sabem a isso se ligar convenientemente; eles têm a ciência adquirida; nos médiuns curadores a faculdade é espontânea e alguns a possuem sem jamais terem ouvido falar do magnetismo.
A faculdade de curar pela imposição das mãos tem, evidentemente, o seu princípio numa força excepcional de expansão, mas é aumentada por diversas causas, entre as quais é necessário colocar em primeira linha: a pureza dos sentimentos, o desinteresse, a benevolência, o ardente desejo de aliviar, a prece fervorosa e a confiança em Deus, em uma palavra, todas as qualidades morais. A força magnética é puramente orgânica; pode ser, como a força muscular, dada a todo o mundo, mesmo a homens perversos; mas só o homem de bem dela se serve exclusivamente para o bem, sem dissimulação de interesse pessoal, nem satisfação do orgulho ou da vaidade; seu fluido depurado possui propriedades benfazejas e reparadoras que não pode ter aquele do homem vicioso ou interessado.
Todo efeito mediúnico, como foi dito, é o resultado da combinação dos fluidos emitidos por um Espírito e pelo médium: por essa união, esses fluidos adquirem propriedades novas que não teriam separadamente, ou pelo menos não teriam no mesmo grau. A prece, que é uma verdadeira evocação, atrai os bons Espíritos solícitos em virem secundar os esforços do homem bem intencionado; seu fluido benfazejo se une facilmente ao dele, ao passo que o fluido do homem vicioso se alia com o dos maus Espíritos que o cercam.
O homem de bem que não tivesse a força fluídica não poderia, pois, senão pouca coisa por si mesmo; ele não pode senão chamar a assistência dos bons Espíritos, mas a sua ação pessoal é quase nula; uma grande força fluídica, aliada à maior soma possível de qualidades morais, pode operar verdadeiros prodígios de curas.
53. A ação fluídica, por outro lado, é poderosamente secundada pela confiança do enfermo, e Deus recompensa, freqüentemente, a sua fé pelo sucesso.
54. Só a superstição pode ligar uma virtude a certas palavras, e só os Espíritos ignorantes e mentirosos podem manter semelhantes idéias prescrevendo quaisquer fórmulas. Entretanto, pode ocorrer que, para pessoas pouco esclarecidas e incapazes de compreenderem as coisas puramente espirituais, o emprego de uma fórmula de prece ou de uma prática determinada, contribui para lhes dar confiança; neste caso, não é a fórmula que é eficaz, mas a fé que é aumentada pela idéia ligada ao emprego da fórmula.
55. Não é necessário confundir os médiuns curadores com os médiuns receitistas; estes últimos são simples médiuns escreventes, cuja especialidade é de servirem, mais facilmente, de intérpretes aos Espíritos para as prescrições médicas; mas não fazem absolutamente senão transmitir o pensamento do Espírito, e não têm, por si mesmos, nenhuma influência.
56. A obsessão é o império que maus Espíritos tomam sobre certas pessoas, tendo em vista dominá-las e submetê-las à sua vontade, pelo prazer que sentem em fazer o mal.
Quando um Espírito, bom ou mau, quer agir sobre um indivíduo, ele o envolve, por assim dizer, com o seu perispírito, como um manto; os fluidos se penetram, os dois pensamentos e as duas vontades se confundem, e o Espírito pode, então, se servir desse corpo como do seu próprio, fazê-lo agir segundo a sua vontade, falar, escrever, desenhar, tais são os médiuns. Se o Espírito é bom, a sua ação é doce, benfazeja; ele não leva a fazer senão boas coisas; se é mau, leva a fazê-las más; se é perverso e mau, constrange-o, como numa rede, paralisa até a sua vontade, o seu julgamento mesmo, que abafa sob o seu fluido, como se abafa o fogo sob uma camada de água; fá-lo pensar, falar, agir por ele, impele-o, apesar dele, a atos extravagantes ou ridículos, em uma palavra, o magnetiza, o cataleptiza moralmente, e o indivíduo se torna um instrumento cego de suas vontades. Tal é a causa da obsessão, da fascinação e da subjugação, que se mostram em graus de intensidade muito diferentes. É ao paroxismo da subjugação que se chama vulgarmente de possessão. Há a se anotar que, neste caso, freqüentemente, o indivíduo tem a consciência de que o que faz é ridículo, mas é constrangido a fazê-lo, como se um homem mais vigoroso do que ele fizesse mover, contra a sua vontade, os seus braços, as suas pernas e a sua língua.
57. Uma vez que os Espíritos existiram de todos os tempos, de todos os tempos também eles desempenharam o mesmo papel, porque esse papel está na Natureza, e a prova disso está no grande número de pessoas obsidiadas ou possuídas, querendo-se, antes que fosse posta a questão dos Espíritos, ou que, em nossos dias, jamais ouviram falar de Espiritismo nem de médiuns. A ação dos Espíritos, bons ou maus, é, pois, espontânea; a dos maus produz uma quantidade de perturbações na economia moral, e mesmo física, que, por ignorância da causa verdadeira, atribuía-se a causas errôneas. Os maus Espíritos são os inimigos invisíveis tanto mais perigosos quanto não se suponha a sua ação. O Espiritismo, pondo-os a descoberto, vem revelar uma nova causa para certos males da Humanidade; conhecida a causa, não se procurará mais combater o mal pelos meios que doravante se sabem inúteis, procurar-se-ão os mais eficazes. Ora, o que fez descobrir essa causa? A mediunidade; foi por meio da mediunidade que esses inimigos ocultos traíram a sua presença; ela fez para eles o que o microscópio fez para os infinitamente pequenos: revelou todo um mundo. O Espiritismo não atraiu, de nenhum modo, os maus Espíritos; ele os descobriu, e deu os meios de paralisar-lhes a ação e, conseqüentemente, afastá-los. Ele não trouxe, de nenhum modo, o mal, uma vez que o mal existia de todos os tempos: trouxe, ao contrário, o remédio ao mal mostrando-lhe a causa. Uma vez reconhecida a ação do mundo invisível, ter-se-á a chave de uma multidão de fenômenos incompreendidos, e a ciência, enriquecida com esta nova lei, verá se abrir diante dela novos horizontes. QUANDO CHEGARÁ ELA A ISSO? Quando ela não professar mais o materialismo, porque o materialismo detém o seu vôo e lhe coloca uma barreira intransponível.
58. Uma vez que se há maus Espíritos que obsIdiam, há bons que protegem, pergunta-se se os maus Espíritos são mais poderosos do que os bons.
Não é o bom Espírito que é mais fraco, é o médium que não é bastante forte para sacudir o manto que se lança sobre ele, para se livrar do constrangimento dos braços que o enlaçam e nos quais, é necessário dizê-lo bem, algumas vezes se compraz. Neste caso, compreende-se que o bom Espírito não possa ter a superioridade, uma vez que se lhe prefere um outro. Admitamos agora o desejo de se desembaraçar desse envoltório fluídico, do qual o seu está penetrado, como uma vestimenta está penetrada pela umidade, o desejo não bastará. A própria vontade nem sempre bastará.
Trata-se de lutar contra um adversário; ora, quando dois homens lutam corpo a corpo, é aquele que tem músculos mais fortes que derruba o outro. Com um Espírito é necessário lutar, não corpo a corpo, mas de Espírito para Espírito, e é ainda o mais forte que domina; aqui, a força está na autoridade que se pode tomar sobre o Espírito, e essa autoridade está subordinada à superioridade moral. A superioridade moral é como o Sol que dissipa o nevoeiro pela força de seus raios. Esforçar-se para ser bom, tornar-se melhor sendo-se já bom, purificar-se de suas imperfeições, em uma palavra, se elevar moralmente o mais possível, tal é o meio para adquirir o poder de dominar os Espíritos inferiores, para afastá-los, de outro modo eles zombarão de vossas imposições. (O Livro dos Médiuns, nº 252 e 279.)
Entretanto, dir-se-á, por que os Espíritos protetores não lhes ordenam para que se retirem? Sem dúvida, eles o podem e o fazem algumas vezes; mas, permitindo a luta, deixam também o mérito da vitória; se deixam se debaterem pessoas merecedoras sob certos aspectos, é para provar a sua perseverança e fazê-las adquirir mais força no bem; é para elas uma espécie de ginástica moral.
Certas pessoas, sem dúvida, prefeririam uma outra receita para expulsar os maus Espíritos: algumas palavras a dizer, ou alguns sinais a fazer, por exemplo, o que seria mais cômodo do que corrigir os seus defeitos. Com isso estamos descontentes, mas não conhecemos nenhum meio eficaz para vencer um inimigo senão de ser mais forte do que ele. Quando se está enfermo, é necessário resignar-se em tomar um medicamento, embora amargo que seja; mas também, quando se teve a coragem de bebê-lo, como se porta bem e como se é forte! É necessário, pois, bem se persuadir de que não há, para alcançar esse objetivo, nem palavras sacramentais, nem fórmulas, nem talismã, nem quaisquer sinais materiais. Os maus Espíritos deles se riem e se divertem, freqüentemente, indicando-os, que têm sempre o cuidado de dizerem infalíveis, para melhor captar a confiança daqueles que querem enganar, porque então estes, confiantes na virtude do processo, se entregam sem receio.
Antes de esperar domar o mau Espírito, é necessário domar a si mesmo. De todos os meios para adquirir a força para lá chegar, o mais eficaz é a vontade secundada pela prece, entenda-se a prece de coração, e não de palavras, para as quais a boca toma mais parte do que o pensamento. É necessário rogar seu anjo guardião, e os bons Espíritos, para nos assistir na luta; mas não basta lhes pedir para expulsarem o mau Espírito, é necessário se lembrar desta máxima: Ajuda-te, e o céu te ajudará, e lhes pedir, sobretudo, a força que nos falta para vencermos os nossos maus pendores, que são para nós piores do que os maus Espíritos, porque são essas tendências que os atraem, como a corrupção atrai as aves de rapina. Pedindo também para o Espírito obsessor, é restituir-lhe mal com o bem, e se mostrar melhor do que ele, o que já é uma superioridade. Com a perseverança, freqüentemente, acaba-se por conduzi-lo a melhores sentimentos e de perseguidor se faz um agradecido.
Em resumo, a prece fervorosa, e os esforços sérios para se melhorar, são os únicos meios para afastar os maus Espíritos que reconhecem seus superiores naqueles que praticam o bem, ao passo que as fórmulas os fazem rir, a cólera e a impaciência os excitam. É necessário deixá-los se mostrando mais pacientes do que eles.
Mas ocorre, algumas vezes, que a subjugação aumenta ao ponto de paralisar a vontade do obsidiado, e que não se pode dele esperar nenhum concurso sério. É então, sobretudo, que a intervenção de terceiros torna-se necessária, seja pela prece, seja pela ação magnética; mas a força dessa intervenção depende também do ascendente moral que os intervenientes podem tomar sobre os Espíritos; porque se não valem mais, a sua ação é estéril. A ação magnética, nesse caso, tem o efeito de penetrar o fluido do obsidiado de um fluido melhor, e de livrá-lo do Espírito mau; ao operar, o magnetizador deve ter o duplo objetivo de opor uma força moral a uma força moral, e de produzir sobre o sujeito uma espécie de reação química, para nos servirmos de uma comparação material, expulsando um fluido por um outro fluido. Por aí, não somente ele opera um desligamento salutar, mas dá força aos órgãos enfraquecidos por uma longa e, freqüentemente, vigorosa opressão. Compreende-se, de resto, que a força da ação fluídica está em razão, não só da energia da vontade, mas sobretudo da qualidade do fluido introduzido, e, segundo o que dissemos, que essa qualidade depende da instrução e das qualidades morais do magnetizador; de onde se segue que um magnetizador comum, que agiria maquinalmente para magnetizar pura e simplesmente, produziria pouco ou de nenhum efeito; é preciso, de toda a necessidade, um magnetizador espírita agindo com conhecimento de causa, com a intenção de produzir, não o sonambulismo ou uma cura orgânica, mas os efeitos que acabamos de descrever. Além disso, é evidente que uma ação magnética, dirigida nesse sentido, não pode ser senão muito útil no caso de obsessão comum, porque então, se o magnetizador é secundado pela vontade do obsidiado, o Espírito é combatido por dois adversários ao invés de um.
É necessário dizer, também, que se acusam, freqüentemente, os Espíritos estranhos de danos dos quais são muito inocentes; certos estados doentios, e certas aberrações que se atribuem a uma causa oculta, por vezes, devem-se simplesmente ao Espírito do próprio indivíduo. As contrariedades, que mais comumente cada um se concentra em si mesmo, sobretudo os desgostos amorosos, fazem cometer muitos atos excêntricos que se estaria errado em levar à conta da obsessão. Freqüentemente, pode ser-se obsessor de si próprio.
Acrescentemos, enfim, que certas obsessões tenazes, sobretudo nas pessoas de mérito, algumas vezes, fazem parte das provas às quais estão submetidas. “Ocorre mesmo, por vezes, que a obsessão, quando é simples, é uma tarefa imposta ao obsidiado, que deve trabalhar para a melhoria do obsessor, como um pai pela de um filho viciado.”
(Para maiores detalhes, remetemos a O Livro dos Médiuns.)
A prece, geralmente, é um meio poderoso para ajudar na libertação dos obsidiados, mas não é uma prece de palavras, dita com indiferença e como uma fórmula banal, que pode ser eficaz em semelhante caso; é necessária uma prece ardente que seja, ao mesmo tempo, uma espécie de magnetização mental; pelo pensamento pode-se levar, sobre o paciente, uma corrente fluídica salutar, cuja força está em razão da intenção. A prece não tem, pois, somente por efeito invocar um socorro estranho, mas de exercer uma ação fluídica. O que uma pessoa não pode fazer só, várias pessoas unidas pela intenção, numa prece coletiva e reiterada, freqüentemente o podem, sendo a potência da ação aumentada pelo número.
59. A ineficácia do exorcismo nos casos de possessão está constatada pela experiência, e está provado que, a maior parte do tempo, aumenta o mal antes que o diminua. A razão disso é que a influência está inteiramente no ascendente moral exercido sobre os maus Espíritos, e não num ato exterior, na virtude das palavras e de sinais. O exorcismo consiste nas cerimônias e fórmulas das quais se riem os maus Espíritos, ao passo que eles cedem à superioridade moral que se lhes impõe; vêem que se quer dominá-los por meios impotentes, que se pensa intimidá-los por um vão aparelho, e tratam de se mostrar os mais fortes, por isso é que redobram; são como o cavalo assustado, que lança por terra o cavaleiro inábil, e que se submete quando encontra o seu senhor; ora, o verdadeiro senhor aqui é o homem de coração mais puro, porque é este que é o mais escutado pelos bons Espíritos.
60. O que um Espírito pode fazer sobre um indivíduo, vários Espíritos podem fazê-lo sobre vários indivíduos, simultaneamente, e dar à obsessão um caráter epidêmico. Uma nuvem de maus Espíritos pode invadir uma localidade, e ali se manifestar de diversas maneiras. Foi uma epidemia desse gênero que maltratou a Judéia ao tempo do Cristo; ora, o Cristo, pela sua imensa superioridade moral, tinha sobre os demônios, ou maus Espíritos, uma superioridade moral tal que lhe bastava ordenar-lhes para se retirarem, para que eles o fizessem, e não empregava para isso nem sinais, nem fórmulas.
61. O Espiritismo está fundado sobre a observação dos fatos resultantes das relações entre o mundo visível e o mundo invisível. Estando esses fatos na Natureza, produziram-se em todas as épocas, e são muitos sobretudo nos livros sagrados de todas as religiões, porque serviram de base à maioria das crenças. Por falta de compreendê-los, foi que a Bíblia e os Evangelhos oferecem tantas passagens obscuras e que foram interpretadas em sentidos tão diferentes; o Espiritismo é a chave que deve facilitar-lhes a inteligência.
É um fato hoje constatado, e perfeitamente explicado, que o Espírito, se isolando de um corpo vivo, pode, com a ajuda de seu envoltório fluídico perispiritual, aparecer em um outro lugar do que aquele em que o seu corpo material está; mas, até o presente, a teoria, de acordo com a experiência, parece demonstrar que essa separação não pode ocorrer senão durante o sono, ou pelo menos durante a inatividade dos sentidos corpóreos. Os fatos seguintes, se forem exatos, provariam que ela pode se produzir igualmente no estado de vigília. São extratos da obra alemã : Os fenômenos místicos da vida humana, por Maximilien Perty, professor na Universidade de Berna, publicado em 1861. (Leipzig e Heidelberg.)
1. “Um proprietário do campo foi visto pelo seu cocheiro no estábulo, os olhares voltados para os animais, no momento em que estava comungando na igreja. Ele contou mais tarde ao seu pastor, que lhe perguntou em que pensava no momento da comunhão. – Mas, respondeu ele, se devo dizer a verdade, eu pensava em meus animais. – Eis a vossa aparição explicada, replicou o eclesiástico.”
O padre estava com a verdade, porque sendo o pensamento um atributo essencial do Espírito, este deve se encontrar onde leva o seu pensamento. A questão é de saber se, no estado de vigília, o desligamento do Espírito pode ser bastante grande para produzir uma aparição, o que implicaria numa espécie de desdobramento do Espírito, do qual uma parte animaria o corpo fluídico e a outra o corpo material. Isto nada teria de impossível considerando-se que, quando o pensamento se concentra sobre um ponto distante, o corpo não age mais do que maquinalmente, por uma espécie de impulso mecânico, o que ocorre sobretudo nas pessoas distraídas; não está animado senão da vida material; a vida espiritual segue o Espírito. É, pois, provável que o homem em questão experimentara nesse momento uma forte distração, e que os seus animais o preocupavam mais do que a sua comunhão.
O fato seguinte entra nessa categoria, mas apresenta uma particularidade mais notável.
2. - “O juiz de cantão, J… em Fr…, enviou, um dia, seu empregado a uma aldeia dos arredores. Depois de um certo lapso de tempo, viu-o entrar, pegar um livro no armário e folheá-lo. Perguntou-lhe bruscamente por que não partira ainda; a essas palavras o empregado desapareceu; o livro caiu por terra, e o juiz o colocou aberto sobre uma mesa, como caíra. À noite, quando o empregado veio de retorno, o juiz lhe perguntou se nada lhe ocorrera no caminho, se ele retornara ao aposento onde ele se encontrava neste momento. – Não, respondeu o empregado; percorri o caminho com um dos meus amigos; atravessando a floresta, tivemos uma discussão a propósito de uma planta que encontráramos, e eu dizia que se estivesse em casa, ser-me-ia fácil mostrar a página de Lineu que me daria razão. – Era justamente esse livro que estava aberto na página indicada. “
Por extraordinário que seja o fato, não se poderia dizer que é materialmente impossível, porque estamos longe de conhecer ainda todos os fenômenos da vida espiritual; todavia, tem necessidade de confirmação. Em semelhante caso, seria necessário poder constatar, de maneira positiva, o estado do corpo no momento da aparição. Até prova em contrário, duvidamos que a coisa seja possível, quando o corpo está numa atividade inteligente.
Os fatos seguintes são mais extraordinários ainda, e confessamos francamente que nos inspiram ainda maiores dúvidas. Compreende-se facilmente que a aparição do Espírito de uma pessoa viva seja vista por uma terceira pessoa, mas não que um indivíduo possa ver a sua própria aparição, sobretudo nas circunstâncias relatadas adiante.
3. - “O secretário de governo de Triptis, em Weimar, indo à chancelaria para ali procurar um pacote de autos dos quais tinha grande necessidade, lá se viu já sentado na sua cadeira habitual, tendo os autos diante de si. Ele se assusta, volta para sua casa, e envia a sua criada com a ordem de pegar os autos que encontraria em seu lugar de costume. Esta para lá foi, e vê igualmente seu senhor sentado na sua cadeira.”
4. - ” Becker, professor de matemática em Rostok, tinha amigos em sua casa, à mesa. Uma controvérsia teológica se levantou entre eles. Becker vai à sua biblioteca procurar uma obra que deveria decidir a questão, e ali se vê sentado no seu lugar habitual. Olhando por cima da espádua de sua outra pessoa, percebe que esta lhe mostra a passagem seguinte na Bíblia aberta: ” Arruma a tua casa, porque deves morrer.” Retorna para os seus amigos que se esforçam em vão para lhe demonstrar a loucura de ligar a menor importância a essa visão. – Ele morreu no dia seguinte.”
5. - “Hoppack, autor da obra: Materiais para o estudo da psicologia, disse que o abade Steinmetz, tendo pessoas em sua casa, em seu quarto, se viu ao mesmo tempo em seu jardim, em seu lugar favorito. Mostrando-se primeiro ele mesmo o dedo, depois seu semelhante, disse: – Eis Steinmetz, o mortal, aquele acolá é imortal.”
6. - “F…, da cidade de Z…, que foi mais tarde juiz, encontrando-se na juventude num campo, foi rogado pela jovem da casa para ir procurar um guarda-sol que esquecera em seu quarto. Ali foi e viu a senhorita sentada em sua mesa de costura, mas mais pálida de que quando a deixara; ela olhava diante de si. F…, apesar de seu medo, pegou o guarda-sol que estava ao lado dela e o transportou. Vendo sua fisionomia transtornada, ela lhe disse: – Confessai que vistes alguma coisa, me vistes. Mas não vos inquieteis, não estou perto de morrer. Eu sou dupla (em alemão Doppegaenger, literalmente: alguém que caminha duplo); eu estava em pensamento junto de minha obra, e já, freqüentemente, encontrei a minha imagem ao meu lado. Não nos fazemos nada.”
7. - “O conde D… e os sentinelas pretenderam ver, uma noite, a imperatriz Elisabeth, da Rússia, sentada em seu trono, na sala do trono, em traje de cerimônia de pompa, enquanto ela estava deitada e dormia. A dama de honra de serviço, que disso também estava convencida, foi despertá-la. A imperatriz foi também para a sala do trono, e ali viu a sua imagem. Ela ordenou a um sentinela para fazer fogo; a imagem então desapareceu. A imperatriz morreu três meses depois.”
8. - “Um estudante, de nome Elger, tornou-se muito melancólico depois de se ter visto, freqüentemente, na roupa vermelha que usava comumente. Ele jamais via o seu rosto, mas os contornos de uma forma vaporosa que se lhe assemelhava, sempre no crepúsculo ou ao luar. Via a imagem no lugar no qual vinha de estar por muito tempo estudando.”
9. - “Uma preceptora francesa, Émile Sagée, perdeu dezenove vezes o seu lugar , porque aparecia por toda parte em duplo. As jovens de um pensionato, em Neuwelke, na Livônia, a viam algumas vezes no salão ou no jardim, ao passo que, na realidade, ela se encontrava em outra parte. De outras vezes viam diante do quadro, durante a lição, duas senhoritas Sagée, uma ao lado da outra, exatamente semelhantes, fazendo os mesmos movimentos, com esta única diferença de que a verdadeira Sagée tinha um pedaço de giz na mão, com o qual escrevia no quadro.”
A obra do Sr. Perty contém um grande número de fatos desse gênero. Há a se notar que, em todos os exemplos citados, o princípio inteligente está igualmente ativo nos dois indivíduos, e mesmo mais ativo no ser material, o que deveria ser o contrário. Mas o que nos parece uma impossibilidade radical, é que possam existir um antagonismo, uma divergência de idéias, de pensamentos e de sentimentos.
Essa divergência está sobretudo manifesta no fato nº 4, onde um adverte o outro de sua morte, e no do nº 7, onde a imperatriz faz disparar sobre a sua outra pessoa.
Admitindo a divisão do perispírito e uma força fluídica suficiente para manter ao corpo a sua atividade normal; supondo-se também a divisão do princípio inteligente, ou uma irradiação capaz de animar os dois seres e de lhes dar uma espécie de ubiqüidade, esse princípio é um e deve ser idêntico; não poderia aí haver, pois, de um lado uma vontade que não existiria de outro, a menos de admitir que haja gêmeos de Espíritos, como há gêmeos de corpo, quer dizer, que dois Espíritos se identificam para se encarnar num mesmo corpo, o que não é muito provável.
Em todas essas histórias fantásticas, se há alguma coisa a pegar, há também muitas a deixar, e a parte a se fazer da lenda. O Espiritismo, bem longe de nos fazer aceitá-las cegamente, ajuda-nos a fazer a separação do verdadeiro e do falso, do possível e do impossível, com a ajuda das leis que nos revelam com respeito à constituição e ao papel do elemento espiritual. Não nos apressemos, entretanto, em rejeitar a priori tudo o que não compreendemos, porque estamos longe de conhecer todas essas leis, e que a Natureza não nos disse ainda todos os seus segredos. O mundo invisível é um campo de observação ainda novo, do qual seria presunção pretender haver sondado todas as profundezas, então que novas maravilhas se revelam sem cessar aos nossos olhos. No entanto, há fatos dos quais a lógica e as leis conhecidas demonstram a impossibilidade material. Tal é, por exemplo, o que está narrado na Revista Espírita do mês de fevereiro de 1859, página 41, sob o título de: Meu amigo Hermann. Trata-se de um jovem Alemão da alta sociedade, doce, benevolente, e do mais honrado caráter, que, todas as tardes, ao pôr-do-Sol, caía num estado de morte aparente; durante esse tempo, seu Espírito despertava nos Antípodas, na Austrália, no corpo de um bandido, que acabou por ser enforcado.
O simples bom senso demonstra que, supondo a possibilidade dessa dualidade corpórea, o mesmo Espírito não pode ser, alternativamente, durante o dia um homem honesto, e à noite um bandido num outro corpo. Dizer que o Espiritismo acredita em semelhantes histórias, é provar que não o conhece, uma vez que dá os meios de provar-lhes o absurdo. Mas, ao mesmo tempo que ele demonstra o erro de uma crença, prova que, freqüentemente, ela repousa sobre um princípio verdadeiro, desnaturado ou exagerado pela superstição; é a despojar o fruto da casca que ele se dedica.
Quantos contos ridículos não se fez sobre o raio, antes de se conhecer a lei da eletricidade! Ocorre o mesmo no que concerne às relações do mundo invisível; fazendo conhecer a lei dessas relações, o Espiritismo as reduz à realidade; mas essa realidade é ainda muito para aqueles que não admitem nem almas, nem mundo invisível; aos seus olhos, tudo o que sai do mundo visível e tangível é da superstição; eis porque denigrem o Espiritismo.
Nota. A questão muito interessante dos homens duplos e a dos agêneres, que a ela se liga estreitamente, foram relegadas, até aqui, para segundo plano, por falta de documentos suficientes para a sua inteira elucidação. Essas manifestações, tão bizarras que sejam, tão incríveis que pareçam à primeira vista, sancionadas pelos relatos dos historiadores, os mais sérios da Antiguidade e da Idade Média, confirmadas por acontecimentos recentes, não podem, pois, de modo algum, ser postas em dúvida. O Livro dos Médiuns, no artigo intitulado: Visitas espirituais entre pessoas vivas, Revista Espírita, em numerosas passagens, confirmam-lhe a existência de maneira a mais incontestável. De uma comparação e de um exame aprofundado de todos esses fatos, resultaria talvez uma solução ao menos parcial da questão, e a eliminação de algumas das dificuldades das quais ela parece cercada.
Estaríamos agradecidos àqueles dos nossos correspondentes que quisessem fazer disso um objeto de estudo especial, seja pessoalmente, seja por intermédio dos Espíritos, de nos comunicar o resultado de suas pesquisas, bem entendido, no interesse da difusão da verdade.
Percorrendo rapidamente os anais anteriores da Revista, e aproximando os fatos assinalados e as teorias emitidas para explicá-los, deles chegamos a concluir que conviria talvez dividir os fenômenos em duas categorias bem distintas, o que permitiria aplicar-lhes explicações diferentes e demonstrar que as impossibilidades que se opõem à sua aceitação pura e simples, são antes aparentes do que reais. (Ver, para esse efeito, os artigos da Revista Espírita de janeiro de 1859, O duende de Bayonne; fevereiro de 1859, os Agêneres, Meu amigo Hermann; maio de 1859, o Laço entre o Espírito e o corpo; novembro de 1859, a alma errante; janeiro de 1860, o Espírito de um lado e o corpo do outro; março de 1860, Estudo sobre o Espírito das pessoas vivas; O Doutor V… e a Srta. S…; abril de 1860, o Fabricante de São-Petersburgo; Aparições tangíveis; novembro de 1860, História de Marie d’Agréda; julho de 1864, Uma aparição providencial, etc., etc.)
A faculdade de expansão dos fluidos perispirituais está hoje superabundantemente demonstrada pelas operações cirúrgicas, as mais dolorosas, realizadas sobre enfermos adormecidos, seja pelo clorofórmio e o éter, seja pelo magnetismo animal. Não é raro, com efeito, ver estes últimos conversando com os assistentes sobre coisas agradáveis ou alegres, ou se transportando ao longe em Espírito, enquanto que o corpo se retorce com todas as aparências de horríveis torturas; a máquina humana, imobilizada no todo ou em parte, se dilacera sob o escalpelo brutal do cirurgião, os músculos se agitam, os nervos se crispam e transmitem a sensação ao aparelho cérebro-espinhal; mas a alma, que no estado normal percebe só a dor e a manifesta exteriormente, momentaneamente afastada do corpo submetido à impressão, dominada por outros pensamentos, por outras ações, não é senão surdamente advertida do que se passa no seu envoltório mortal e nele permanece perfeitamente insensível. Quantas vezes não se viram soldados feridos gravemente, todo ao ardor do combate, perdendo seu sangue e sua força, lutar por muito tempo ainda, não se apercebendo de suas feridas? Um homem, fortemente preocupado, recebe um choque violento sem nada sentir-lhe, e não é senão quando cessa a abstração de sua inteligência que ele reconhece haver estado chocado à sensação dolorosa que prova. A quem não ocorreu, numa poderosa contenção do Espírito, de atravessar uma multidão tumultuosa e barulhenta, sem nada ver e sem nada ouvir, se bem que, entretanto, o nervo óptico e o aparelho auditivo tivessem percebido as sensações e as tivesse transmitido fielmente à alma?
Disso não se pode duvidar, pelos exemplos que precedem e por uma multidão de fatos que seria muito longo relacionar aqui, mas que cada um está no caso de apreciar, o corpo pode, de uma parte, cumprir as suas funções orgânicas, ao passo que o Espírito é levado ao longe pelas preocupações de uma outra ordem. O perispírito, indifinidamente expansível, conservando ao corpo a elasticidade e a atividade necessárias à sua existência, acompanha constantemente o Espírito durante a sua viagem distante no mundo ideal.
Se nos lembrarmos, além disso, de sua propriedade muito conhecida de condensação, que lhe permite tornar-se visível sob as aparências corpóreas para os médiuns videntes, e mais raramente para quem se encontre presente no lugar para onde se transportou o Espírito, não se poderá mais colocar em dúvida a possibilidade dos fenômenos da ubiqüidade.
Está, pois, para nós demonstrado que uma pessoa viva pode aparecer, simultaneamente, em duas localidades distantes uma da outra; de uma parte com o seu corpo real, de outra com o seu perispírito momentaneamente condensado, sob as aparências de suas formas materiais. Não obstante, nisso de acordo, como sempre, com Allan Kardec, não podemos admitir a ubiqüidade senão quando reconhecemos uma semelhança perfeita na atuação do ser aparente. Tais são, por exemplo, os fatos citados precedentemente sob os nºs 1 e 2. Quanto aos fatos seguintes, inexplicáveis para nós, se lhes aplicando a teoria de ubiqüidade, nos parecem, senão indiscutíveis, pelo menos admissíveis encarando-os de um outro ponto de vista.
Nenhum dos nossos leitores ignora a faculdade, que possuem certos Espíritos desencarnados, de aparecer, sob as aparências materiais, em certas circunstâncias e mais particularmente aos médiuns ditos videntes. Entretanto, num certo número de casos, tais como nas aparições visíveis e tangíveis para uma multidão, ou para um certo número de pessoas, é evidente que a percepção da aparição não é devida à faculdade mediúnica dos assistentes, mas à realidade da aparência corpórea do Espírito, e, nessa circunstância como nos fatos da ubiqüidade, essa aparência corpórea é devida à condensação do aparelho perispiritual. Ora, se o mais freqüentemente os Espíritos, no objetivo de se fazer reconhecerem, aparecem tais como eram quando vivos, com as vestes que lhes eram mais habituais, não lhes é impossível se apresentarem, seja vestidos diferentemente, seja mesmo sob quaisquer traços, tal, por exemplo, o Duende de Bayonne, aparecendo, ora sob a sua forma pessoal, ora sob os traços de um de seus irmãos, morto como ele, ora sob as aparências de pessoas vivas e mesmo presentes. O Espírito tinha o cuidado de fazer reconhecer a sua identidade, apesar das formas variadas sob as quais se apresentava; mas não tivesse nada feito, não é evidente que as testemunhas da manifestação estariam persuadidas de que assistiam a um fenômeno de ubiqüidade?
Se, considerando-se como um precedente esse fato, que está longe de ser isolado, procurarmos explicar do mesmo modo os fatos nºs. 3, 4, 5, 6, 8 e 9, nos será talvez possível aceitar-lhes a realidade, ao passo que lhes admitindo a ubiqüidade, a incompatibilidade de pensamentos, o antagonismo dos sentimentos e da atividade do organismo das duas partes, não nos permitem, de nenhum modo, olhá-los como possíveis.
No fato nº 4, em lugar de supor o professor Becker em presença de seu sósia, admitamos que ele concordou que um Espírito lhe aparecesse sob a sua própria forma, todo antagonismo desaparece e o fenômeno entra no domínio do possível. Ocorre o mesmo com o fato nº 7. Não se compreende Elisabeth da Rússia fazendo atirar sobre a sua própria imagem, mas admite-se perfeitamente que ela faça atirar sobre um Espírito que tomou a sua aparência para mistificá-la. Certos Espíritos tomam, às vezes, um nome suposto, e se enfeitam com o estilo e as formas de um outro para obterem a confiança dos médiuns e o acesso aos grupos; que haveria de impossível nisso, que um Espírito orgulhoso se prestasse a tomar a forma da imperatriz Elisabeth e sentar-se no seu trono para dar uma vã satisfação aos seus sonhos ambiciosos? E assim nos outros casos.
Não damos esta explicação senão por aquilo que ela vale; essa não é, aos nossos olhos, senão uma suposição bastante plausível, e não a solução real dos fatos; mas, tal como é, nos pareceu de natureza a esclarecer a questão chamando sobre ela as luzes da discussão e da refutação. É a esse título que a submetemos aos nossos leitores. Possam as reflexões que ela provocará, as meditações às quais poderá dar lugar, cooperar para a elucidação de um problema que não pudemos senão esflorar, deixando aos mais dignos dissiparem a obscuridade da qual ainda está cercado.
Há algum tempo que não dou sinal de vida; tendo estado ocupado todo o tempo da minha permanência em Lyon, não pude dar-me uma conta tão perfeita, quanto gostaria, do estado atual da Doutrina nesse grande centro. Não assisti senão a uma única sessão espírita; entretanto, pude constatar que, nesse meio, a fé primeira é sempre o que ela deve ser nos corações verdadeiramente sinceros.
Em diferentes outros centros do Sul, ouvi discutir esta opinião, emitida por alguns magnetizadores, de que muitos dos fenômenos, ditos espíritas, são simplesmente efeitos de sonambulismo, e que o Espiritismo não faz senão substituir o magnetismo, ou antes, vestiu-se com o seu nome. É, como vedes, um novo ataque dirigido contra a mediunidade. Assim, segundo essas pessoas, tudo o que os médiuns escrevem é o resultado das faculdades da alma encarnada; é ela que, libertando-se momentaneamente, pode ler no pensamento das pessoas presentes; é ela que vê à distância e prevê os acontecimentos; é ela que, por um fluido magnético-espiritual, agita, levanta, tomba as mesas, percebe os sons, etc., tudo, em uma palavra, repousaria sobre a essência anímica sem a intervenção de seres puramente espirituais.
Isso não é uma novidade que vos ensino, dir-me-eis. Com efeito, eu mesmo ouvi, há alguns anos, certos magnetizadores sustentarem essa tese; mas hoje procura-se implantar essas idéias que, a meu ver, são contrárias à verdade. É sempre um erro cair nos extremos, e há tanto exagero em tudo reportar ao sonambulismo, como haveria, da parte dos espíritas, em negar as leis do magnetismo. Não se poderia roubar à matéria as leis magnéticas, do mesmo modo que, ao Espírito, as leis puramente espirituais.
Onde se detém a força da alma sobre os corpos? Qual é a parte dessa força inteligente nos fenômenos do magnetismo? Qual é a do organismo? Eis as questões cheias de interesse, questões sérias para a filosofia como para a medicina.
Aguardando a solução desses problemas, vou citar-vos algumas passagens de Charpignon, esse doutor de Orléans, que é partidário da transmissão do pensamento. Vereis que ele mesmo se reconhece na impossibilidade de demonstrar, na visão propriamente dita, que a causa vem da extensão do simpático orgânico, como o pretendem vários autores.
Ele diz, à página 289:
“Acadêmicos, dobrai os trabalhos de vossos candidatos; moralistas, promulgai leis para a sociedade, o mundo, esse mundo que ri de tudo, que quer o seu gozo com o desprezo das leis de Deus e dos direitos dos homens, frustra os vossos esforços, porque tem a seu serviço uma força que não supondes, e que deixastes crescer de tal sorte que não sois mais senhores para detê-la.”
À página 323:
“Compreendemos bem, até aqui, o modo de transmissão do pensamento, mas nos tornamos impossibilitados para compreender, por essas leis de simpatia harmônica, o sistema pelo qual o homem forma, em si mesmo, tal ou tal pensamento, tal ou tal imagem, e essa solicitação de objetos exteriores. Isto sai das propriedades do organismo, e a psicologia, encontrando nessa faculdade rememorativa, ou criativa, segundo o desejo do homem, alguma coisa de antagonismo com as propriedades do organismo, fá-la depender de um ser substancial diferente da matéria. Comecemos, pois, a procurar, no fenômeno do pensamento, algumas lacunas entre a capacidade das leis fisiológicas do organismo e o resultado obtido. O rudimento do fenômeno, podendo-se assim se explicar, é bem fisiológico, mas a sua extensão, verdadeiramente prodigiosa, não o é mais; é necessário admitir aqui que o homem goza de uma faculdade que não pertence a nenhum dos dois elementos materiais dos quais, até o presente, não o vimos composto. O observador de boa-fé, encontrará, pois, aqui, uma terceira parte que entrará na composição do homem, parte que começa a se lhe revelar, do ponto de vista de psicologia magnética, por caracteres novos, e que se referem àqueles que os filósofos concedem à alma.
“Mas a existência da alma se encontra mais fortemente demonstrada pelo estudo de algumas outras faculdades do sonambulismo magnético. Assim, a visão à distância, quando ela é completa e claramente desembaraçada da transmissão do pensamento, não poderia, na nossa opinião, se explicar pela estensão do simpático orgânico.”
Depois, à página 330:
“Tínhamos, como se vê, grandes motivos para adiantar que o estudo dos fenômenos magnéticos tinha grande relação com a filosofia e a psicologia. Indicamos um trabalho a fazer, e para ele convidamos os homens especiais.”
Nas páginas seguintes, há a questão dos seres imateriais e de suas relações possíveis com nossos indivíduos.
Página 349: É fora de dúvida, para nós, e precisamente por causa das leis psicológicas que esboçamos neste trabalho, que a alma humana pode ser esclarecida diretamente, seja por Deus, seja por uma outra inteligência. Cremos que essa comunicação sobrenatural pode ocorrer no estado normal, como no estado extático, quer seja espontânea ou artificial.”
Página 351: “Mas voltamos a dizer que a previsão natural ao homem é limitada e não poderia ser tão precisa, tão constante e tão largamente exposta quanto as previsões que foram feitas pelos profetas sagrados, ou por homens que estavam inspirados por uma inteligência superior à alma humana.”
Página 391: “A ciência e a crença no mundo espiritual são dois termos antagônicos; mas apressamo-nos em dizer que foi pelo exagero que surgiram esses dois lados. É possível, ao nosso parecer, que a ciência e a fé façam aliança, e então o espírito humano se encontrará ao nível de sua perfectibilidade terrestre.”
Página 396: “O Antigo, como o Novo Testamento, assim como os anais da história de todos os povos, estão cheios de fatos que não se podem explicar senão pela ação de seres superiores ao homem; aliás, os estudos de antropologia, de metafísica e de ontologia, provam a realidade da existência de seres imateriais entre o homem e Deus, e a possibilidade de sua influência sobre a espécie humana.”
Eis agora a opinião de uma das principais autoridades em magnetismo, sobre a existência de seres fora da Humanidade. Ela foi extraída da correspondência de Deleuze com o doutor Billot:
“O único fenômeno que parece estabelecer a comunicação com os seres imateriais são as aparições. Delas há vários exemplos, e como estou convencido da imortalidade da alma, não vejo razão para negar a possibilidade da aparição de pessoas que, tendo deixado esta vida, se ocupam daqueles que lhes são caros, e vêm a eles se apresentar para dar-lhes conselhos salutares.”
O doutor Ordinaire, de Mâcon, outra autoridade nessa matéria, assim se exprime:
“O fogo sagrado, a influência secreta (de Boileau), a inspiração, não provêm, pois, de tal ou tal contextura, assim como o pretendem os frenólogos, mas de uma alma poética, em relação com um Gênio mais poético ainda. Ocorre o mesmo com relação à música, à pintura, etc. Essas inteligências superiores não seriam almas libertas da matéria que se elevam, gradualmente, à medida que se depuram, até a grande, a universal inteligência que as abarca todas, até Deus? Nossas almas, depois de diversas migrações, não tomariam lugar entre esses seres imateriais?
“Concluamos, disse o mesmo autor, do que precede: que o estudo da alma está ainda em sua infância; que, uma vez que do pólipo ao homem existe uma série de inteligências, e que nada se interrompe bruscamente na Natureza, deve racionalmente existir, do homem a Deus, uma outra série de inteligências. O homem é o elo que une as inteligências inferiores, associadas à matéria, com as inteligências superiores, imateriais. Do homem a Deus se encontra uma série semelhante à que existe do pólipo ao homem, quer dizer, uma série de seres etéreos, mais ou menos perfeitos, gozando de especialidades diversas, tendo ocupações e funções variadas.
“Que essas inteligências superiores se revelam tangivelmente no sonambulismo artificial;
“Que essas inteligências têm, com a nossa alma, relações íntimas;
“Que é a essas inteligências que devemos os nossos remorsos, quando fizemos o mal; a nossa satisfação, quando fizemos uma boa ação;
“Que é a essas inteligências que os homens superiores devem as suas boas inspirações;
“Que é a essas inteligências que os extáticos devem a faculdade de prever o futuro e anunciar acontecimentos futuros;
“Enfim, que, para agir sobre essas inteligências, e torná-las propícias, a virtude e a prece têm uma ação poderosa.”
Nota. A opinião de tais homens, e esses não são os únicos, tem certamente um valor que ninguém poderia contestar; mas isso não seria sempre senão uma opinião mais ou menos racional, se a observação não viesse confirmá-la. O Espiritismo está todo nos pensamentos que acabamos de citar; somente ele vem completá-los pelas observações especiais, coordená-los e dando-lhes a sanção da experiência.
Aqueles que se obstinam em negar a existência do mundo espiritual, e que não podem, entretanto, negar os fatos, se esforçam por procurar-lhes a causa exclusiva no mundo corpóreo; mas uma teoria, para ser verdadeira, deve dar a razão de todos os fatos que a ela se ligam; um só fato contraditório a destrói, porque não há exceções nas leis da Natureza. Isso ocorreu à maioria daquelas que se imaginaram, no princípio, para explicar os fenômenos espíritas; quase todas caíram, uma a uma, diante dos fatos que não podiam abarcar. Depois de haver esgotado, sem resultado, todos os sistemas, forçou-se em vir às teorias espíritas, como as mais concludentes, porque, não tendo de nenhum modo sido formuladas prematuramente, e sobre observações feitas levianamente, elas abarcam todas as variedades, todas as nuanças dos fenômenos. O que as faz aceitar, tão rapidamente, por um maior número, é que cada um nelas encontra a solução completa e satisfatória daquilo que procurou inutilmente alhures.
Todavia, muitos a repelem ainda; ela tem isso de comum com todas as grandes idéias novas que vêm mudar os hábitos e as crenças, é que todas encontraram, por muito tempo, contraditores obstinados, mesmo entre os homens mais esclarecidos. Mas um dia virá em que a verdade deverá dominar sobre o que é falso, e se admirará, então, tanta oposição que se lhe fez, tanto a coisa parecerá natural. Assim será com o Espiritismo; e o que se tem a notar é que, de todas as grandes idéias que revolucionaram o mundo, nenhuma conquistou, em tão pouco tempo, um número tão grande de partidários, em todos os países e em todas as classes da sociedade. Eis por que os espíritas, cuja fé não é cega, como os seus adversários o pretendem, mas fundada sobre a observação, não se inquietam nem com os seus contraditores, nem com aqueles que não partilham as suas idéias; eles ponderam que a Doutrina, a ressaltando das próprias leis da Natureza, em lugar de se apoiar sobre a derrogação dessas leis, não poderá deixar de prevalecer quando essas leis novas serão reconhecidas.
A idéia da existência de seres intermediários entre o homem e Deus não é nova, como todos o sabem; mas figurava-se, geralmente, que esses seres formavam criação à parte; as religiões os designaram sob os nomes de anjos e de demônios; os pagãos os chamavam de deuses. O Espiritismo, vindo provar que esses seres não são outros senão a alma dos homens, chegadas aos diferentes graus da escala espiritual, conduz a criação à unidade gloriosa, que é a essência das leis divinas. Em lugar de uma multidão de criações estacionárias, que acusariam na Previdência o capricho ou a parcialidade, não há senão uma, essencialmente progressiva, sem privilégio para nenhuma criatura, cada individualidade se elevando do embrião ao estado de desenvolvimento completo, como o germe do grão chega ao estado de árvore. O Espiritismo nos mostra, pois, a unidade, a harmonia, a justiça na criação. Para ele, os demônios são as almas atrasadas, ainda manchadas dos vícios da Humanidade; os anjos são essas mesmas almas depuradas e desmaterializadas; e, entre esses dois pontos extremos, a multidão de almas chegadas aos diferentes graus da escala progressiva; por aí, ele estabelece a solidariedade entre o mundo espiritual e o mundo corpóreo.
Quanto à questão proposta: Qual é, nos fenômenos espíritas ou sonambúlicos, o limite onde se detém a ação própria da alma humana, e onde começa a dos Espíritos? Diremos que essa divisão não existe, ou melhor, que ela nada tem de absoluta. Desde o instante em que não são, de nenhum modo, espécies distintas, que a alma não é senão um Espírito encarnado, e o Espírito uma alma livre dos laços terrestres, que é o mesmo ser nos dois meios diferentes, as faculdades e as aptidões devem ser as mesmas. O sonambulismo é um estado transitório entre a encarnação e a desencarnação, um desligamento parcial, um pé colocado, por antecipação, no mundo espiritual. A alma encarnada, ou querendo-se, o Espírito próprio do sonâmbulo ou do médium, pode, pois, fazer, com pouca diferença, o que fará a alma desencarnada, e mesmo mais se ela é mais avançada, com esta diferença, todavia, de que pela sua libertação completa, sendo mais livre, a alma tem percepções especiais inerentes ao seu estado.
A distinção entre o que, num dado efeito, é produto direto da alma do médium, e o que provém de uma fonte estranha, às vezes, é muito difícil de ser feita, porque, muito freqüentemente, essas duas ações se confundem e se corroboram. Assim é que, nas curas pela imposição de mãos, o Espírito do médium pode agir sozinho ou com a assistência de um outro Espírito; que a inspiração poética ou artística, pode ter uma dupla origem. Mas do fato de uma distinção ser difícil, não se segue que seja impossível. A dualidade, com freqüência, é evidente, e, em todos os casos, ressalta quase sempre de uma observação atenta.
As percepções que ocorrem no estado sonambúlico, sendo de uma outra natureza do que aquelas do estado de vigília, não podem ser transmitidas pelos mesmos órgãos. É constante que, neste caso, a visão não se efetue pelos olhos que, aliás, estão geralmente fechados, e que se pode mesmo pôr ao abrigo dos raios luminosos de maneira a afastar toda suspeita. A visão à distância, e através de corpos opacos, exclui, além disso, a possibilidade do uso dos órgãos ordinários da visão. É preciso, pois, de toda necessidade, admitir no estado de sonambulismo, o desenvolvimento de um sentido novo, sede de faculdades e de percepções novas que nos são desconhecidas, e das quais não podemos nos dar conta senão por analogia e pelo raciocínio. Para isso, se concebe, nada de impossível; mas qual é a sede desse sentido? É o que não é fácil de determinar com exatidão. Os próprios sonâmbulos não dão, a esse respeito, nenhuma indicação precisa. Ocorre que, para melhor verem, aplicam os objetos sobre o epigastro, outro sobre a fronte, outro sobre o occipital. Esse sentido não parece, pois, circunscrito num lugar determinado; é certo, contudo, que a sua maior atividade reside nos centros nervosos. O que é positivo é que o sonâmbulo vê. Por onde e como? É o que ele mesmo não pode definir.
Notemos, no entanto, que, no estado sonambúlico, os fenômenos da visão e as sensações que o acompanham, são essencialmente diferentes daquele que ocorre no estado ordinário; também não nos serviremos da palavra ver senão por comparação, e na falta de um termo que, naturalmente, não temos para uma coisa desconhecida. Um povo de cegos de nascença, de nenhum modo, teria palavra para exprimir a luz, e relacionaria as sensações que ela faz sentir a alguma daquelas que compreende porque a ela está submetido.
Procurou-se explicar a um cego a impressão viva e brilhante da luz sobre os olhos. Eu compreendo, disse ele, é como o som da trombeta. Um outro, um pouco mais prosaico, sem dúvida, a quem se quis fazer compreender a emissão dos raios em feixes ou cones luminosos, respondeu: Ah! sim; é como um objeto de forma cônica. Estamos nas mesmas condições com respeito à lucidez sonambúlica; somos verdadeiros cegos, e, como estes últimos para a luz, nós a comparamos àquilo que, para nós, tem mais analogia com a faculdade visual; mas se quisermos estabelecer uma analogia absoluta entre essas duas faculdades e julgar uma pela outra, necessariamente, nos enganaremos como os dois cegos que acabamos de citar. Está aí o erro de quase todos aqueles que procuram, supostamente, se convencer pela experiência; querem submeter a clarividência sonambúlica às mesmas provas que da visão comum, sem sonhar que não há relações entre elas a não ser o nome que lhes damos, e como os resultados não respondem sempre à expectativa, acham mais simples negar.
Se procedermos por analogia, diremos que o fluido magnético, espalhado por toda a Natureza, e do qual os corpos animados parecem ser os principais focos, é o veículo da clarividência mediúnica, como o fluido luminoso é o veículo das imagens percebidas pela nossa faculdade visual. Ora, do mesmo modo que o fluido luminoso torna transparente os corpos que atravessa livremente, o fluido magnético, penetrando todos os corpos sem exceção, não há, de nenhum modo, corpos opacos para os sonâmbulos. Tal é a explicação, a mais simples e a mais natural, da lucidez, falando do nosso ponto de vista. Nós a cremos justa, porque o fluido magnético, incontestavelmente, desempenha um papel importante nesse fenômeno; ela, entretanto, não poderia dar conta de todos os fatos. Há uma outra que os abarca a todos, mas à qual algumas explicações preliminares são indispensáveis.
Na visão a distância, o sonâmbulo não distingue um objeto ao longe como poderíamos fazê-lo através de um binóculo. Não é, de nenhum modo, esse objeto que se aproxima dele por uma ilusão óptica, É ELE MESMO QUE SE APROXIMA DO OBJETO. Ele o vê precisamente como se estivesse ao lado dele; ele mesmo se vê no lugar que observa; em uma palavra, ele se transporta. Seu corpo, nesse momento, parece aniquilado, sua palavra é mais abafada, o som de sua voz tem alguma coisa de estranha; a vida animal parece se extinguir nele; a vida espiritual está toda inteira no lugar onde o seu pensamento o transporta; só a matéria fica no mesmo lugar. Há, pois, uma porção de nosso ser que se separa de nosso corpo para se transportar, instantaneamente, através do espaço, conduzida pelo pensamento e a vontade. Essa porção, evidentemente, é imaterial; de outro modo, ela produziria alguns efeitos da matéria; é a essa parte de nós mesmos que chamamos a alma.
Sim, é a alma que dá ao sonâmbulo as faculdades maravilhosas das quais goza; a alma que, em circunstâncias dadas, se manifesta se isolando em parte e momentaneamente de seu envoltório corporal. Para quem observou atentamente os fenômenos do sonambulismo em toda a sua pureza, a existência da alma é um fato patente, e a idéia de que tudo se acaba em nós com a vida animal é, para ele, uma insensatez demonstrada até à evidência; também se pode dizer, com alguma razão, que o magnetismo e o materialismo são incompatíveis; se há alguns magnetizadores que parecem se afastar dessa regra, e que professam doutrinas materialistas, é que não fizeram, sem dúvida, senão um estudo muito superficial dos fenômenos físicos do magnetismo, e que não procuraram seriamente a solução do problema da visão a distância. Qualquer que ele seja, jamais vimos um único sonâmbulo que não estivesse penetrado de um profundo sentimento religioso, quaisquer que possam ser as suas opiniões no estado de vigília.
Retornemos à teoria da lucidez. A alma, sendo o princípio das faculdades do sonâmbulo, é nela que reside, necessariamente, a clarividência, e não em tal ou tal parte circunscrita de nosso corpo. É porque o sonâmbulo não pode designar o órgão dessa faculdade como designaria o olho para a visão exterior: ele vê por todo o seu ser moral, quer dizer, por toda a sua alma, porque a clarividência é um dos atributos de todas as partes da alma, como a luz é um dos atributos de todas as partes do fósforo. Por toda a parte, pois, onde a alma pode penetrar, há clarividência; daí a causa da lucidez através de todos os corpos, sob os envoltórios mais espessos e em todas as distâncias.
Uma objeção se apresenta, naturalmente, a esse sistema, e devemos nos apressar em responder a ela. Se as faculdades sonambúlicas são as mesmas da alma liberta de sua matéria, por que essas faculdades não são constantes? Por que certos sujeitos são mais lúcidos do que outros? Por que a lucidez é variável no mesmo sujeito? Concebe-se a imperfeição física de um órgão; não se concebe a da alma.
A alma se liga ao corpo por laços misteriosos, que não nos fora dado a conhecer antes que o Espiritismo nos tivesse demonstrado a existência e o papel do perispírito. Tendo essa questão sido tratada de maneira especial na Revista e nas obras fundamentais da Doutrina, não nos deteremos mais aqui; limitamos-nos a dizer que é pelos nossos órgãos materiais que a alma se manifesta ao exterior. Em nosso estado normal, essas manifestações estão naturalmente subordinadas à imperfeição do instrumento, do mesmo modo que o melhor operário não pode fazer uma obra perfeita com más ferramentas. Por admirável que seja, pois, a estrutura de nosso corpo, que ele haja tido a previdência da Natureza em relação ao nosso organismo para o cumprimento de suas funções vitais, há distância desses órgãos, submetidos a todas as perturbações da matéria, à sutileza de nossa alma. Por muito tempo, pois, que a alma se prenda ao corpo, sofre-lhe os entraves e as vicissitudes.
O fluido magnético não é a alma, é um laço, um intermediário entre a alma e o corpo; é pela sua maior ou menor ação sobre a matéria que torna a alma mais ou menos livre; daí a diversidade das faculdades sonambúlicas. O sonâmbulo é o homem que não está desembaraçado senão de uma parte de suas vestes, e cujos movimentos são ainda constrangidos por aquelas que lhe restam.
A alma não terá sua plenitude e inteira liberdade de suas faculdades, senão quando houver sacudido os últimos cueiros terrestres, como a borboleta sai de sua crisálida. Se um magnetizador fosse tão potente para dar à alma uma liberdade absoluta, o laço terrestre seria rompido e a morte disso seria a conseqüência imediata. O sonambulismo nos faz, pois, colocar um pé na vida futura; ele afasta um lado do véu sob o qual se escondem as verdades que o Espiritismo nos faz entrever hoje; mas não a conheceremos, em sua essência, senão quando estivermos inteiramente desembaraçados do véu material que a obscurece neste mundo.
Se, no estado sonambúlico, as manifestações da alma se tornam, de alguma sorte, ostensivas, seria absurdo pensar que, no estado normal, ela estivesse confinada em seu envoltório de maneira absoluta, como o caracol está encerrado em sua concha. Não é, de nenhum modo, a influência magnética que a desenvolve; essa influência não faz senão torná-la patente pela ação que exerce sobre os nossos órgãos. Ora, o estado sonambúlico não é sempre uma condição indispensável para essa manifestação; as faculdades que vimos se produzirem nesse estado, se desenvolvem, algumas vezes, espontaneamente no estado normal de certos indivíduos. Disso resulta, para eles, a faculdade de ver além dos limites de nossos sentidos; percebem as coisas ausentes por toda a parte onde a alma estende a sua ação; vêem, se podemos nos servir desta expressão, através da visão comum, e os quadros que descrevem, os fatos que contam, se apresentam a eles como o efeito de uma miragem, e é o fenômeno designado sob o nome de segunda vista. No sonambulismo, a clarividência é produzida pela mesma causa; a diferença é que, nesse estado, ela está isolada, independente da vida corpórea, ao passo que lhe é simultânea, naqueles que dela são dotados no estado de vigília.
A segunda vista quase nunca é permanente; em geral, esse fenômeno se produz espontaneamente, em certos momentos dados, sem ser um efeito da vontade, e provoca uma espécie de crise que modifica, algumas vezes, sensivelmente o estado físico: o olho tem alguma coisa de vago; parece olhar sem ver; toda a fisionomia reflete uma espécie de exaltação.
É de notar-se que as pessoas que dela gozam, não suspeitam disso; essa faculdade lhes parece natural como aquela de ver pelos olhos; para elas, é um atributo de seu ser, e que não lhes parece, de nenhum modo, fazer exceção. Acrescentai a isso que o esquecimento segue, muito freqüentemente, essa lucidez passageira, cuja lembrança, cada vez mais vaga, acaba por desaparecer como a de um sonho.
Há graus infinitos no poder da segunda vista, desde a sensação confusa, até a percepção tão clara e tão limpa como no sonambulismo. Falta-nos uma palavra para designar esse estado especial, e sobretudo os indivíduos que dele são suscetíveis: tem se servido da palavra vidente, e embora não dê exatamente o pensamento, adotá-la-emos até nova ordem, por falta de melhor.
Se aproximamos agora os fenômenos da clarividência sonambúlica e da segunda vista, compreende-se que o vidente possa ter a percepção das coisas ausentes; como o sonâmbulo, ele vê à distância; segue o curso dos acontecimentos, julga de sua tendência e pode, em alguns casos, prever-lhes o resultado.
É esse dom da segunda vista que, no estado rudimentar, dá a certas pessoas o tato, a perspicácia, uma espécie de segurança em seus atos, e que se pode chamar a justeza do golpe de vista moral. Mais desenvolvida, desperta os pressentimentos, mais desenvolvida ainda, mostra os acontecimentos realizados, ou no ponto de se realizarem; enfim, chega ao seu apogeu, é o êxtase desperto.
O fenômeno da segunda vista, como dissemos, é quase sempre natural e espontâneo; mas parece se produzir, mais freqüentemente, sob o império de certas circunstâncias. Os tempos de crise, de calamidade, de grandes emoções, todas as causas, enfim, que superexcitam o moral, provocam-lhe o desenvolvimento. Parece que a Providência, em presença dos perigos mais iminentes, multiplica, ao nosso redor, a faculdade de preveni-los.
Houve videntes em todos os tempos e em todas as nações; parece que certos povos a isso estejam mais naturalmente predispostos; diz-se que, na Escócia, o dom da segunda vista é muito comum. Encontra-se, assim tão freqüentemente, entre as pessoas do campo e os habitantes das montanhas.
Os videntes foram diversamente olhados segundo os tempos, os costumes e o grau de civilização. Aos olhos das pessoas céticas, passam por cérebros desarranjados, alucinados; as seitas religiosas deles fizeram profetas, sibilas, oráculos; nos séculos de superstição e de ignorância, eram feiticeiros que se queimavam. Para o homem sensato, que crê na força infinita da Natureza, e na inesgotável bondade do Criador, a dupla vista é uma faculdade inerente à espécie humana, pela qual Deus nos revela a existência de nossa essência material. Qual é aquele que não reconhece um dom dessa natureza em Jeanne d’Arc e numa multidão de outros personagens que a história qualifica de inspirados?
Tem-se falado, freqüentemente, de cartomantes que dizem coisas surpreendentes de verdade. Estamos longe de nos fazer apologistas de ledores de sorte, que exploram a credulidade de espíritos fracos, e cuja linguagem ambígua se presta a todas as combinações de uma imaginação ferida; mas não há nada de impossível em que, certas pessoas, fazendo esse ofício, tenham o dom da segunda vista, mesmo com o seu desconhecimento; desde então as cartas não são, em suas mãos, senão um meio, senão um pretexto, uma base de conversação; elas falam segundo o que vêem, e não segundo o que indicam as cartas que apenas olham.
Ocorre o mesmo com outros meios de adivinhação, tais como as linhas das mãos, o resíduo de café, as claras de ovo e outros símbolos místicos. Os sinais da mão, talvez, tenham mais valor do que todos os outros meios, de nenhum modo por si mesmos, mas porque o suposto adivinho, tomando e apalpando a mão do consulente, se está dotado da segunda vista, encontra-se em relação mais direta com este último, como ocorre nas consultas sonambúlicas.
Podem colocar-se os médiuns videntes na categoria das pessoas gozando da dupla vista. Como estes últimos, com efeito, os médiuns videntes crêem ver pelos olhos, mas, em realidade, é a alma que vê, e é a razão pela qual vêem tão bem de olhos fechados, quanto de olhos abertos; segue-se, necessariamente, que um cego poderia ser médium vidente tão bem quanto aquele cuja visão está intacta. Um estudo interessante a fazer seria saber se esta faculdade é mais freqüente nos cegos. Seríamos levados a crer, tendo em vista que, assim como se pode disso se convencer pela experiência, a privação de se comunicar com o exterior, em razão da ausência de certos sentidos, em geral, dá mais poder à faculdade de abstração da alma e, por conseguinte, mais desenvolvimento ao sentido íntimo pelo qual ela se põe em relação com o mundo espiritual.
Os médiuns videntes podem, pois, ser comparados às pessoas que gozam da visão espiritual; mas seria, talvez, muito absoluto considerar estes últimos como médiuns; porque a mediunidade consistindo unicamente na intervenção dos Espíritos, o que se faz por si mesmo não pode ser considerado como um ato mediúnico. Aquele que possui a visão espiritual vê pelo seu próprio Espírito, e nada implica, no desenvolvimento de sua faculdade, a necessidade do concurso de um Espírito estranho.
Isto posto, examinemos até que ponto a faculdade da dupla vista pode nos permitir descobrir as coisas ocultas e de penetrar no futuro.
De todos os tempos, os homens quiseram conhecer o futuro, e poder-se-iam escrever volumes sobre os meios inventados pela superstição para levantar o véu que cobre o nosso destino. A Natureza foi muito sábia no-lo escondendo; cada um de nós tem a sua missão providencial na grande colmeia humana, e concorre à obra comum na sua esfera de atividade. Se soubéssemos, antecipadamente, o fim de cada coisa, ninguém duvide que a harmonia geral com isso sofreria. Um futuro feliz assegurado tiraria do homem toda atividade, uma vez que não teria necessidade de nenhum esforço para chegar ao objetivo que se propôs: seu bem-estar; todas as forças físicas e morais seriam paralisadas, e a marcha progressiva da Humanidade seria detida. A certeza da infelicidade teria as mesmas conseqüências pelo efeito do desencorajamento; todos renunciariam lutar contra o decreto definitivo do destino. O conhecimento absoluto do futuro seria, pois, um presente funesto que nos conduziria ao dogma da fatalidade, o mais perigoso de todos, o mais antipático ao desenvolvimento das idéias. É a incerteza, do momento de nosso fim neste mundo que nos faz trabalhar até a última batida de nosso coração. O viajor arrastado por um veículo abandona-se ao movimento que deve conduzi-lo ao objetivo, sem pensar em se fazer desviar, porque sabe da sua impossibilidade; tal seria o homem que conhecesse o seu destino irrevogável. Se os videntes pudessem transgredir essa lei da Providência, seriam os iguais da divindade; também, tal não é, de nenhum modo, a sua missão.
Nos fenômenos da dupla vista, estando a alma em parte desligada do envoltório material que limita as nossas faculdades, não há mais, para ela, nem duração, nem distâncias; abarcando o tempo e o espaço, tudo se confunde no presente. Livre de seus entraves, ela julga os efeitos e as causas melhor do que não podemos fazê-lo: vê as conseqüências das coisas presentes e pode nos fazer pressenti-las; é nesse sentido que se deve entender o dom da presciência atribuído aos videntes.
Suas previsões não são senão o resultado de uma consciência mais clara do que existe, e não uma predição de coisas fortuitas sem laço com o presente; é uma dedução lógica do conhecido para chegar ao desconhecido, que depende, muito freqüentemente, de nossa maneira de fazer. Quando um perigo nos ameaça, se somos advertidos, estamos no caso de fazermos o que é preciso para evitá-lo: com a liberdade de fazê-lo ou não.
Em semelhante caso, o vidente se encontra em presença do perigo que se nos acha oculto; ele o assinala, indica o meio de afastá-lo, senão o acontecimento segue o seu curso.
Suponhamos um carro conduzido numa estrada terminando num abismo, que o condutor não pode perceber; é bem evidente que, se nada vem fazê-lo desviar, irá nele se precipitar; suponhamos, por outro lado, um homem colocado de maneira a dominar a estrada em linha reta; que esse homem, vendo a perda inevitável do viajor, possa adverti-lo para desviar-se a tempo, o perigo será conjurado. De sua posição, dominando o espaço, vê o que o viajor, cuja visão está circunscrita pelos acidentes do terreno, não pode distinguir; pode ele ver se uma causa fortuita vai pôr obstáculo à sua queda; conhece, pois, antecipadamente, o resultado do acontecimento e pode predizê-lo.
Que esse mesmo homem, colocado sobre uma montanha, perceba ao longe, no caminho, uma tropa inimiga se dirigindo para uma aldeia que quer incendiar; ser-lhe-á fácil, calculando o espaço e a velocidade, prever o momento da chegada da tropa. Se, descendo à aldeia, diz simplesmente: A tal hora a aldeia será incendiada, o acontecimento vindo se cumprir, ele passará, aos olhos da multidão ignorante, por um adivinho, um feiticeiro, ao passo que, muito simplesmente, viu o que os outros não podiam ver, e disso deduziu as conseqüências.
Ora, o vidente, como esse homem, abarca e segue o curso dos acontecimentos; não lhe prevê o resultado pelo dom da adivinhação; ele o vê! Pode, pois, vos dizer se estais no bom caminho, vos indicar o melhor, e vos anunciar o que encontrareis no fim do caminho; é, para vós, o fio de Ariadne que vos mostra a saída do labirinto.
Há distância daí, como se vê, à predição propriamente dita, tal como a entendemos na acepção vulgar da palavra. Nada é tirado ao livre arbítrio do homem, que permanece sempre senhor para agir ou não agir, que cumpre ou deixa de cumprir os acontecimentos pela sua vontade ou pela sua inércia; se lhe indica o meio para chegar ao objetivo, cabe-lhe dele fazer uso. Supô-lo submetido a uma fatalidade inexorável pelos menores acontecimentos da vida, é deserdá-lo de seu mais belo atributo: a inteligência; é assimilá-lo ao animal. O vidente não é, pois, de nenhum modo, um adivinho; é um ser que percebe o que não vemos; é para nós o cão do cego. Nada, pois, aqui, contradiz os objetivos da Providência sobre o segredo de nosso destino; é ela mesma que nos dá um guia.
Tal é o ponto de vista sob o qual deve ser encarado o conhecimento do futuro nas pessoas dotadas de dupla vista. Se esse futuro fosse fortuito, se dependesse do que se chama o acaso, se não se ligasse em nada às circunstâncias presentes, nenhuma clarividência poderia penetrá-lo, e toda previsão, nesse caso, não poderia oferecer nenhuma certeza. O vidente, e por isso entendemos o verdadeiro vidente, o vidente sério, e não o charlatão que o simula, o verdadeiro vidente, dizemos, não diz nada do que o vulgo chama a boa sorte; ele prevê o resultado do presente, nada mais, e isso já é muito.
Quantos erros, quantas falsas deligências, quantas tentativas inúteis não evitaríamos, se tivéssemos sempre um guia seguro para nos esclarecer; quantos homens estão deslocados no mundo por não terem sido lançados no caminho que a Natureza traçou para as suas faculdades!
Quantos fracassos por ter seguido os conselhos de uma obstinação irrefletida! Uma pessoa poderia lhe dizer: “Não tenteis tal coisa porque as vossas faculdades intelectuais são insuficientes, porque ela não convém nem ao vosso caráter, nem à vossa constituição física, ou bem ainda porque não sereis secundado segundo a necessidade; ou bem ainda porque vos enganais sobre a importância dessa coisa, porque encontrareis tal entrave que não prevedes.” Em outras circunstâncias, ter-lhe-ia dito: “Triunfareis em tal coisa, se a tomardes de tal ou tal maneira; se evitardes tal deligência que pode vos comprometer.” Sondando as disposições e o caráter, ter-lhe-ia dito: “Desconfiai de tal armadilha que se quer vos estender;” depois teria acrescentado: “Estais prevenidos, meu papel está findo; eu vos mostro o perigo; se sucumbirdes não acuseis nem a sorte, nem a fatalidade, nem a Providência, mas só a vós. Que pode o médico, quando o enfermo não tem em nenhuma conta os seus conselhos?”